Esperando por...

Todos os dias acordamos cheios de esperanças, afinal o sol está brilhando, a passarada já está cantando...

Não cansamos de esperar..., pois é gostoso a esperança...

É ela quem nos impulsiona, nos dá a energia do ousar.

Por quantas coisas esperamos..?



Esperando por...
(Paulo Boblitz – fev/2005)

Esperamos por tempos melhores, por alguém que não chega, pela tarde agradável, pela lua cheia para namorar...

Esperamos pela chuva da boa semente, pelo sol que acaba com o frio, pelo dia que termina com a noite...

Esperamos pela aposentadoria, pela cegonha que traz a vida, pelos filhos crescerem, pelo almoço que está cheirando gostoso...

Esperamos pelo décimo terceiro, pelo aumento no salário, pela sorte grande na loteria...

Esperamos pela carteirinha que libera a primeira entrada no filme impróprio até quatorze anos, pelos quinze anos, pelo primeiro baile, pela primeira noite dormida fora...

Esperamos pela primeira bebedeira, pela primeira transa, pela primeira carreira de um pai ciumento...

Espera-se por tantas coisas, que o Homem poderia ser conhecido como "esperador".

Por dias melhores, a espera se torna esperança. Bem pode ainda um tempo ruim, tornar-se em desespero.

Uma briga é sempre pelo destempero, de quem não teve tempo de esperar pela calma, e calma é coisa boa da alma.

Esperamos pelo ônibus, pelo trem, pelo avião. Houve tempo que esperava-se pelo bonde, quando ninguém tinha pressa...

Alguém agora, deve estar esperando que esta história acabe logo.

De esperar é a sala de espera, a fila pela vez, o número da senha a ser chamado, a barriga de prenhez...

Ninguém espera cair na malha do Imposto de Renda, nem furar um pneu, nem bater fofo na hora H. Ninguém espera pela morte, embora o seguro para a viúva já esteja feito.

De espera em espera, vamos vivendo e aprendendo, pelo menos a ter paciência... De vez em quando a espera nos faz ficar relembrando de alguns nomes feios, que aqui não posso citar...

A espera produz recompensas, e desilusões também. Quem sabe esperar, até ri por último, e a vingança é feita de esperas...

Na campana espera-se flagrar, aquilo que o flagrado não espera acontecer...

Esperamos o elevador, o telefone dar sinal, o sinal tornar-se verde, o guarda deixar passar a multa...

Esperamos a planta crescer para colhermos os frutos, e esperamos o animal ficar graúdo, para passarmos-lhe a faca.

Esperamos o vinho e o uísque envelhecerem, a cerveja ficar gelada, a velhice chegar para começarmos a reclamar...

Alguém esperou que o Esperanto se tornasse língua universal. Ainda espera até hoje, e continuará esperando.

O professor espera pelo fim da prova, o aluno pela campainha do recreio, o lutador que está perdendo, pelo gongo do intervalo, e o badalador, pelo fim de semana.

De espera em espera, sempre aguardamos o futuro, pois quem espera, ainda não satisfez o presente...

E presente é o que todo mundo espera ganhar: é no natal, é no aniversário, é no dia das crianças, no das mães, no dos pais, dos professores, dos namorados...

Quem espera sempre alcança, diz o ditado para nos fazer ficar esperando, mas quem sabe faz a hora, não espera acontecer, diz também aquela música, e quem não sabe esperar, come cru.

A pior espera é pela hora passar... Como é lento, o caminhar dos ponteiros...

A mais religiosa, é a espera pela cura. Até promessas são prometidas...

A mais precavida é não ser assaltado, e ficamos esperando pelo assalto, sem nada de valor...

A mais informal é sentado no sanitário, e a mais vexatória, é soltar pum em elevador quando não estamos sozinhos. Por essa ninguém espera, e quando sai, é sem querer.

Ninguém espera ser pego na mentira, mas continuamos a mentir...

Há somente uma hora em que somos os senhores do tempo: a da revolta; essa é a única em que ninguém espera nada. Ela vem e sempre passa... Do jeito que chega, de repente vai embora, e começamos a esperar novamente, pela vida, pela morte, pela salvação...

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