Voltando para casa... - descendo a serra da Rocinha; subindo a serra do Rio do Rastro

Esteja sempre pronto para os imprevistos,

e tire-os de letra,

porque eles nada têm contra você...

Faz parte! Assim como o doce, o sal e o picante,

eles também são temperos...


Voltando para casa... - descendo a serra da Rocinha; subindo a serra do Rio do Rastro
(Paulo R. Boblitz - 23/set/2013)

Nós até já havíamos esquecido de como era o Sol, vaga lembrança de uma bola laranja que esquentava bastante quando o céu estava no azul... Nosso mundo há dias que era cinza, essa mesmice de uma cor apenas, às vezes cinza claro, outras vezes cinza escuro, e outras mais ou menos...

Para não fugir à regra, o dia estava cinzento e frio novamente, bem frio por sinal.

Tomamos o nosso café da manhã, nos despedimos de Dona Geovana, do Seu Jair e da Vick, uma cadela simpática que acercou-se quando de nossa chegada, e agora vinha despedir-se, como inteligente a conhecer quando chegamos, e quando vamos embora...

Para quem quiser anotar um bom endereço: www.valedastrutas.com.br, fone (54) 3504-5693 - procurem por Dona Geovana.

Ligamos o motor, tratei do aquecedor, zerei o hodômetro e fomos em frente, com minha Copiloto atenta nas marcas, e o que fazer quando chegássemos nelas. Primeiro começamos a subir, lá de cima vendo os chalés simpáticos em que ficamos, como se casinhas de brinquedo. Nivelamos na estrada e reparamos que em paralelo, outra BR em construção. Quando começássemos a descer, já estaríamos em Santa Catarina.

Foi uma descida longa, pelos buracos, pelas pedras, pela neblina que nos permitia poucos metros de visibilidade à frente. Rio Grande do Sul e Santa Catarina haviam se juntado em conspiração, para nos fazer voltar em outra época, pois segredos são apenas revelados, poucos de cada vez.

Não reclamamos... Em nenhum momento de nossa viagem, reclamamos por não termos conseguido, pelo contrário, agradecemos sempre por tudo aquilo que vimos, afinal, nuvens também têm suas belezas..! Rodávamos devagar, pelas tantas pedras que tentavam nascer do solo, e de repente, do nosso lado, parecia que alguém havia destampado alguma panela de bom feijão, ou de bom arroz, ou de macarrão, como queiram, quando aquele vapor quente sobe pulando em liberdade... Era tudo aquilo que sabíamos estar subindo lá das entranhas dos cânions, por certo carregados de todos os temperos e aromas da terra, dos verdes, das águas que misturam tudo num cozimento a frio... Aqui um aviso: não tentem fazer isso em casa; apenas Deus consegue...

E minha esposa, de repente virou criança...

- Pára o carro..! - disse-me ela...

Parei, puxei o freio de mão, liguei o pisca-alerta (já estava com os faróis acesos), ela desceu e me disse:

- Parece quando eu ia para a escola, de manhã bem cedo brincando de fumar... - e embrenhou-se no nevoeiro, soprando seu cigarro imaginário, sopro quente a formar pequeníssimas trilhas de condensação no ar frio que a envolvia...

E fiquei feliz, e a fotografei, feliz também que estava, como toda alegria deve ser, do coração para fora...

- Mulher..!, vamos embora..! - gritei-lhe, chamando-a à razão...

Querem saber? Levamos cerca de duas horas para descer aqueles cerca de mil metros; nossa primeira cidade era Timbé do Sul, onde começavam os arrozais, depois viria Turvo, em seguida Forquilhinha, onde almoçamos num restaurante português, comida gostosa mesmo quando não estamos assim com tanta fome. Vou ficar devendo o nome, mas procurem por algum português, em frente ao Pavilhão de Eventos. Estávamos no tempo certo, meio dia e dez... Quarenta minutos depois, isso mesmo, levantávamos acampamento e partíamos, não porque não tivéssemos gostado, mas porque a subida da serra era mais importante...

Esqueci de ligar o GPS, coisa pouca, só 3,3 quilômetros, sinal da euforia da boa comida, mas ligando-o em boa hora, afinal o passeio deve ser mais bonito que o traçado... Pouco tempo depois, chegávamos em Nova Veneza, onde paramos para uma fotografia em seu pórtico, quando pegamos estrada de chão, nos perdemos pouquinha coisa numa pequena rua sem saída, passamos ao largo de Siderópolis e começamos a nos confundir a partir de Treviso, pois estão construindo uma rodovia, e por ela nos embrenhamos, hora na nova, hora na velha, cheia de buracos, lama preta de carvão, das muitas carboníferas, mas nada que quem tivesse boca, não chegasse ao rumo certo, até que uma grande Caçamba, gentil, nos mandou acompanhá-la até Lauro Müller, onde nos encontramos novamente com o roteiro, na travessia do rio Tubarão.

Aqui abro uns parênteses: o programa Google Earth baseia-se em fotografias de satélites; quando foram batidas, não existia o presente que hoje nos apresentava modificações. Assim, quando criar seu próprio roteiro, não se desespere se alguma marca não bater; pratique o seu verbo e guarde tudo na sua estante das tantas histórias que os imprevistos vão construindo, pois serão elas as razões do bem valer dos caminhos que você percorreu...

Rio Tubarão identificado, buzinamos agradecendo à grande caçamba, que nos devolveu aquele buzinaço de trem a vapor, seguindo seu próprio destino. Zeramos nosso hodômetro, como o roteiro mandava, atravessamos a ponte e seguimos para Guatá, agora sem possibilidades de erros pelo caminho, pois era subir e subir, já encarando o fumo grosso de nuvens que encontraríamos pela frente...

- Mulher..! Fecha o roteiro e curta a paisagem, curta a subida... - falei para esposa...

Mostrei a ela onde havia pernoitado em Guatá e continuamos a subir, novamente por entre nuvens... Era perseguição..., mas, nos estava reservado a aparição de um Quati, bandido mascarado louco por biscoitos... Parei no refúgio, espécie de pequeno acostamento, cerca de 50 metros do ponto onde ele estava, e o comecei a chamá-lo como chamamos cavalos e burros, sons de beijos para dentro, e o sem vergonha veio sem cerimônia..., sinal de que comida tem um som só...

Um Quati de longe é engraçadinho, mas olhando-o de perto, notando o tamanho de seus caninos, finos e pontiagudos, há que se respeitá-los... Nossa sorte é que eles já se tornaram malandros, arredios por natureza, mansos pela comida que sabem receberão, prova de que não existe ninguém bobo, seja gente, bicho ou natureza...

Pegava o biscoito e ia embora comer sossegado. Beijávamos ao contrário novamente, e ele vinha, pois o som era o de comida, fosse qual ela fosse...

- Mulher.!? Vamos embora, se não a gente vai matar esse pobre coitado...

É isso mesmo: bicho come comida de bicho, e quando lhes damos nossas comidas, podemos matá-los de muitas formas...

Deixamos o malandro e seguimos em frente, cada vez mais para cima, cada vez mais para dentro do nevoeiro que prometia nos tirar a boa visão do que se vinha à frente, fantasmas que se nos apareciam de repente... Assim chegamos num caminhão baú, que lento subia fazendo força, que parando teve que ceder a vez ao seu similar que descia, isso tudo numa curva de 180 Graus, e que necessitou descer um pouco para que o outro manobrasse... Atrás de nós, um velho Gol com deficiência no funcionamento em baixa, daqueles que ficam acelerando para não estancar, colado à nossa ré como a querer nos empurrar... O caminhão à frente descendo um pouco, o nevoeiro a complicar as vistas, o fulerage a querer subir, e nós no meio...

Engatei a ré, as luzes acenderam, e me aproximei da velha carniça, deixando claro que estava descendo. Entre o caminhão bater em mim, e eu bater na velha carcaça, escolhi bater no menos doloroso, e o que a conduzia entendeu, e começou a descer, abrindo-me espaço. Ficamos nisso até que os dois caminhões, roçando-se nos dois baús, negociassem o exíguo espaço, e assim que pudemos, abrimos e demos passagem ao aflito que vinha brigando com seu carburador que não mais funcionava na baixa marcha...

Que ele fosse com Deus, afinal, havia alguma razão suficiente para que ele estivesse por ali... Nós, estávamos apenas passeando...

Chegamos finalmente no topo da serra, onde a placa nos dá as Boas-Vindas, mas a cerração mais apertou. Seguimos assim, até que ela, como se num passe de mágica, sumisse. Passáramos de um cenário para o outro, assim, sem mais nem menos, antes, nada se podendo ver a trinta metros adiante, agora tudo limpo com um sol radiante, coisas que só a Natureza nos apresenta, coisas que só a gente presente, para ver e acreditar...
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Chegando em Bom Jardim da Serra, mostrei à esposa, a personalidade marcante da igreja matriz da cidade, e de lá seguimos até Urubici, precisamente para a Pousada Véu de Noiva, a meio caminho da subida do Morro da Igreja, e qual não foi a nossa surpresa quando a encontramos com a porteira sob cadeado..? Na coluna, um grande aviso: "Horário de Atendimento, de TERÇA a DOMINGO.

Nada contra nenhum horário, nada contra nenhuma política, mas, e se eu estivesse de bicicleta? Teria subido aquilo tudo, para nada? Eu havia feito reserva, e tinha que ser avisado, para isso mesmo, não quebrar a cara na porteira... Ou que me avisassem que não tinham reparado que minha reserva havia caído num dia em que eles não operam, afinal, para que serve um telefone?

Demos meia volta e nos dirigimos para Dona Célia, que estava na igreja ministrando um curso para jovens em preparação para a Crisma. Sua filha Ana Célia nos atendeu, instalando-nos no mesmo apartamento em que tínhamos ficado, quando de nossa ida para Gramado, mais um bom endereço para se anotado:

Pousada da Célia - (49) 3278-4323 - Urubici, SC

Fica o aviso: se estiverem programando suas passagens pela Véu de Noiva, verifiquem se esse dia cairá numa segunda-feira.

Agora tínhamos internet, televisão, muitas tomadas, chuveiro fortíssimo e delicioso, colchão cama-box, tudo novinho, e a felicidade da surpresa de Dona Célia em nos encontrar ali novamente, nos ensinando um bom lugar para jantarmos alguma coisa, e nos dizendo que a televisão havia informado que no dia seguinte poderia nevar. A caminho do jantar, o termômetro anunciava 6 Graus... Procurávamos o Zeca's Bar, bem na avenida principal, que funciona de segunda a segunda, onde comemos uma pizza especial, de tão gostosa que estava.

Amanhã subiremos o Morro da Igreja, tentar ver a Pedra Furada, mas isso é uma outra história...

* * *

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