Pelas terras, pelo Iguaçu, do Paraná... (dia 14)


A covardia é uma senhora tardia,

que visitamos quando não temos,

chances,

opções,

deslumbramentos...

A covardia é, portanto, uma vadia,

que se aproveita de nossas,

por certo, incertezas...



Não existem guerras, sem batalhas...
(Paulo R. Boblitz - 20/fev/2015)

Voltar ao hotel, já em Capanema, era um alívio, pois que tudo já estava resolvido.

Encontrei meu telefone celular já bem geladinho, pois que há muitos dias ele só se permitia bem funcionar, depois que o deixava de castigo dentro do frigobar, melhor ainda, no congelador da pequena geladeira...



Alguma coisa o estava a esquentar em demasia, momento em que apagava a tela por inteiro, ou a fazia tremular. Antes de ver as mensagens, montei a roda traseira de Sofia, oleei sua corrente, deixei-a pronta para a ação no dia seguinte.

Na tranquilidade do quarto, e bem rápido para que o celular não esquentasse, fui lendo as respostas às perguntas que havia lançado no dia anterior, avisando sobre nosso amanhã, que seria chegarmos em Andresito, para no dia seguinte seguirmos juntos para Foz.

As chuvas estavam estragando o nosso passeio, e de fato, aquele dia tinha sido de muita água por toda a região; somente ontem, 7/abril, consegui contato com o Thiago, desejar-lhe uma Páscoa feliz, mesmo com atraso, e com atraso também receber a mesma saudação; importa que pelos lugares difíceis que andamos, sem sinais de recepção, o pensamento, a vontade prevalece... Conversamos e rimos das agruras encontradas, do meu lado dificuldades, do lado dele, somente atrasos...

Mas voltando à narração, estava já no quarto do hotel, onde meio desanimado lia:

- Não poderei ir, porque fui escalado...

- Não poderei ir, porque não terminei um serviço...

A todos eles eu entendia, Sofia já dormia, afinal já teria valido à pena, o compromisso da promessa, da vontade, da preocupação, porém todos temos os nossos limites, que devem ser respeitados...

Até sorri quando um outro, que nem me prometera nada, lançou em grande aviso, que pela estrada por dentro do Parque Nacional Iguazú, SÓ DE TRATOR!!!, que eu não fosse por ali, caso contrário, atolaria...

Resumindo a história, restava-me somente uma opção, por todos eles sugerida, seguir por Wanda, cerca de 72 km, não dormindo em Andresito. Aquilo punha por terra, todo um planejamento que havia combinado com o Leo Añais, e como já estávamos escaldados quando de nosso caminho de Pinhão até a Usina do Segredo, em princípio, acolheríamos as recomendações; a estrada pelo interior do Parque Nacional Iguazú, não tinha piçarra, mas sim pedras misturadas à argila, ou seja, tudo a dançar por baixo de nós, tudo a nos querer dar rasteiras, por longos quilômetros...

Estaríamos sozinhos, somente eu e Sofia, e por ali existem onças, sussuaranas, linces, e sabe-se lá mais o quê...

Com os 72 quilômetros na cabeça, fomos dormir, e dormimos uma noite bem tranquila, pela temperatura que o ar condicionado nos proporcionava, pela textura da cama que nos envolvia, pelo silêncio total em que o Hotel Tito's nos apresentava, recolhido longe da avenida principal.


Acordamos com os 72 quilômetros na cabeça, e não nos apressamos; nos demos ao luxo de ainda procurarmos o Banco para sacar dinheiro, e procurarmos um supermercado, para a compra de Pesos Argentinos.

O café da manhã havia sido farto e saboroso; nosso início foi em descida, mas a festa logo acabaria, porque não existem caminhos sem ladeiras.

Por vezes o Iguaçu nos vinha flertar, verificar se ainda o estávamos procurando, apresentando-se calmo e volumoso, coisas que somente um rio profundo, sem marolas, pode mostrar...


Em dado momento, à sombra, bebendo um pouco d'água, mostrei para Sofia o que era personalidade. Ela, levantando os olhos, tentou entender...

- O rio..! O Iguaçu..! Não vê que ele não larga da cor marrom? - e ficamos ali os dois, observando os remansos, aqueles redemoinhos tranquilos, como se em cachos ao vento, fossem se enrolando e desenrolando num festival em harmonia...

Aquilo, nada mais era do que a força hidráulica agindo em conformidade com o cenário do fundo, criando correntes, circulando calmarias, ampliando todos aqueles  desenhos submersos que um dia a fúria conseguiu esculpir...

Porto Lupion logo se apresentou, outrora cheio de vida, por onde o progresso caminhava, hoje estagnado há longos 13 anos, assim me confidenciou um descendente de alemães, desiludido, triste, como se nem tivesse notado minha presença anormal, vestido de ciclista numa bicicleta carregada.

Mais acima, num alpendre a balançar-se sobre uma rede, o jovem a tossir uma tosse seca e rouca.

- Lá do otro lado, pela estrada do colono, por onde todo o Paraná foi colonissado; por aqui passaron todossos colonos... - tentava ele explicar-me, sem nem ele mesmo entender, como a política pode ser canhestra ou desonesta...

Nem os cães, pareciam crer que nós existíssemos; somente um deles, com tímido latido, calando-se em seguida para manter forças.



Não era uma cidade fantasma, ainda, mas parecia estar se povoando com todos eles; à volta, ruínas ou degradação, raízes agarrando-se à pobreza, como a vida que se agarra à vida, mesmo que parca, como a esperança que se agarra ao futuro, quando ele mesmo já é quase realidade...

Nem mesmo o templo, onde a Fé também parecia estar cansada, parecia-se com algum lugar de culto...

Pesquisei sobre a Estrada do Colono, por último transformada em PR-495, pois que é mais antiga do que a certidão que lhe passaram, e sua história é desconexa, assim como tudo aquilo em que o Meio Ambiente, junto com as ONGs, se mete. Construí dois polígonos, um em azul, seguindo pela Argentina, através da Estrada Parque, e outro na cor Ocre, seguindo por dentro do Brasil, onde o Google Earth nos mostra claramente, bem nítido, pela Estrada do Colono, até Medianeira. Agora observem o tamanho dos dois traçados, o das Rutas 101 / 12, e o da nossa Estrada do Colono; afinal, quem produz mais danos ao tal eco-sistema? Por que a Estrada Parque, por dentro do Parque Nacional Iguazú, também não está fechada?

Antes de partirmos, levei Sofia até a beirada do Iguaçu, onde nos molhamos um pouco, com toda aquela riqueza; ali permanecemos quietos, procurando ouvir o rio, mas ele é silencioso, discreto, calado - apenas se pronunciaria, rebelar-se-ia, quando chegasse a hora, e que ninguém o tentasse deter...
De volta para a estrada, ainda tentei dar adeus para o velho senhor, que apático, dobrando apenas o punho para cima, levantava a meia mão como se nem os cumprimentos, ali fossem trocados...


No trevo, ao dobrarmos à direita em direção à Argentina, dois supermercados abandonados em cada lado da estrada; estávamos bem próximos da divisa. Nossa Aduana nem me deu bola, fazendo-me sinal para que seguisse. Poucos metros adiante, passávamos pela ponte internacional Brasil/Argentina, sobre o rio San Antonio, um rio espelhado. Na Aduana argentina, deixei Sofia à sombra, retirei o capacete, as bandanas, as luvas, adentrando por uma porta até uma janela, onde uma senhora em castelhano, dava-me as boas-vindas. Entreguei-lhe minha identificação, ela preencheu um formulário e informou que deveria entregá-lo quando saísse do país; tinha validade por 90 dias.

Na saída do prédio, soldados camuflados nos cumprimentaram; ali a vida parecia correr calma. Dali em diante, o asfalto negro transformava-se na cor ocre, porque tudo aquilo que saía do mato, pintava suas impressões como carimbos pneumáticos; mais 15 quilômetros, avistaríamos Andresito, e dali até chegarmos em Wanda, seria apenas mais um pouco...

Estávamos num dia alegre, afinal ele ainda não havia acabado, e o local da minha decisão, ainda estava por chegar, bem depois de Andresito, se seguiríamos para Wanda, ou se seguiríamos por dentro da floresta.

Chegar em Andresito, às 13 horas de um dia bastante quente, e descobrirmos nossa verdade, foi um choque...; Wanda, pela Ruta Nacional 12, ainda estava a 76 quilômetros de distância, informava a placa, fria e desdenhosa, pouco se importando com o que achássemos. Descer para Andresito, agora era imperativo; precisávamos de água e comida. Serviram-me dois grandes filés de pollo grelhados, dois ovos mal passados, arroz e batatas sauté, junto com dois pãezinhos franceses, quando Sofia perguntou se eu tinha alvará da Prefeitura...

- Para quê? - perguntei sem desconfiar...

- Pra cagar na rua...

- Sofia..!, são 76 quilômetros..! Você não viu?

Sofia deu de ombros, e continuei a comer, raspando o prato com cada naco de pão, besuntando-o com o molho queimado do pollo, e das gemas estouradas. Abastecidos, retornamos para o batente, sem sabermos que tudo não passava de um grande deserto verde, sem um lugar sequer para nosso reabastecimento. Estávamos a passar por dentro do Parque Provincial Uruguai, cerca de 35 quilômetros sem nenhuma construção; quando me dei conta, já havia consumido uma caramanhola inteira, e entrado bem, na segunda, afinal o pollo viera carregado no sal; agora era racionar a outra, um gole morno a cada 5 quilômetros...

Paramos no grande entroncamento: à esquerda, para Wanda; à direita, pela Estrada Parque...

Utilizei o zoom como luneta, e me confirmei; por Wanda seguiríamos... A piçarra podia estar seca, mas quando ela acabasse, enfrentaríamos tudo aquilo que já se mostrava molhado escorregadio...

Assim chegamos, depois de longo tempo, no arroyo Uruzú, único lugar em que vi água passando perto de nós; atravessamos a ponte e nos deparamos com algumas construções de Guardas-Parque, mas tudo estava fechado. Quando nos dirigíamos para o rio, para nos abastecermos de água barrenta pura, deparamo-nos com dois casais que se preparavam para ir embora, talvez de um banho ali gostoso, talvez findando um acampamento. Paramos eu e Sofia, desconfiados, e uma das mulheres nos lançou um ¡Hola!, quebrando o gelo. Sorrimos e perguntamos pelo caminho até o arroyo, mostrando-lhes nossa garrafinha vazia. Fizeram que não com os dedos, e nos apresentaram um galão de água mineral pela metade, e nossa caramanhola foi cheia até a boca; havíamos sido salvos pela segunda vez...

Partimos preocupados com a hora, pois ainda faltavam muitos quilômetros, e muitas subidas, como depois descobrimos o caminho serrilhado que percorremos.

Foi um longo caminho até chegarmos na primeira casa, que nos forneceu um copo grande com a água mais gostosa desse mundo, gelada a desbravar a secura que a falta d'água nos proporcionava há um bom tempo; pouco antes de terminar o copo, perguntei sobre a tienda mais próxima, recusando o segundo copo ao descobrir que dali a cerca de 500 metros; estávamos salvos pela terceira vez, no espaço de dois dias...

Chegar na tienda foi um alívio, onde de tudo havia um pouco; bebi refrigerante de laranja, bebi água, enchi minhas caramanholas, peguei mais uma garrafa d'água para reserva, chupei dois picolés de limão, e novamente rico cheio de vida, sob o olhar assustado de Sofia, partimos dali renovados, já meio tardinha, faltando ainda 30 quilômetros para Colonia Wanda...

Chegar em uma cidade desconhecida, já anoitecido, sem planos a não ser o de achar um lugar onde dormir, é meio estranho... Perguntar é a solução, e perguntamos; não estava longe...

Faltando 15 minutos para as 8 da noite, horário velho, horário normal igual ao meu, ancoramos no hotel, nem lembro mais do nome, porque não anotei, porque a dona não me deixou carregar Sofia para o quarto, mas arranjou um bom lugar para ela pernoitar, em seu próprio escritório particular. Estava muito cansado para qualquer coisa, por isso arrumei um bom lugar para Sofia e subi para tomar um banho onde não me cabia. O quarto era bacana, mas o banheiro, bem apertado; o chuveiro era quase fora do box, coisa corrigida por uma cortina inclinada, que abri, e molhei tudo... Arrumei um pano de chão e a tudo enxuguei, afinal, lambanças não fazem parte do nosso feitio.


Foi um hotel sobre uma Galeria, creio que em frente da Rodoviária da cidade, pagamento adiantado, jantar logo ali do lado, delicioso numa casa humilde, rodeado pelo cozinheiro, esposa e filhos. Comi bastante pollo gratinado, a salada inteira, toda a batata sauté, e o arroz, bem, esse sobrou um pouco, enquanto eles me davam água na boca comendo pizza... Se Deus quiser, ainda lá voltarei para jantar, e novamente sorrir com todos eles...

O dia foi mais um dia resolvido, cheio de surpresas, pimentas que dão sabor, que emprestam personalidade à jornada, 119,5 quilômetros num dia em que desejei a maior das chuvas, e não choveu, nenhum pingo sequer perdido... Gastamos eu e Sofia, 11 horas e 29 minutos, insanos não planejados, não aguardados, porém enfrentados como preparados devemos estar, afinal, tudo ali era nossa escolha...

Gastei 6.038 calorias, pus sei lá, quantas para dentro..? Subimos 1.491 metros; descemos 1.672 metros, mas quem se importava?

A média do coração ficou em 123 bpm; o pico foi a 146 bpm.

O dia havia sido puxado, mas completamente vencido, e isso sim, era o que importava... Agora seria dormir o bom sono, deixar-se embalar pelos bons sonhos, pois que quem pedala, não tem pesadelos...

* * *

  

2 comentários:

  1. olà Paulo, tò ficando curioso pra ver quando vc chegar às cataratas, entrar de bicicleta do lado argentino foi impossivel, do lado brasileiro permitiram e foi uma coisa de uma beleza deslumbrante, parabens pela viagem, corrado

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    1. Sim, aquilo tudo é muito lindo, mas só contarei na próxima crônica. Aguenta mais um pouco. Grande abraço!

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