Os Pedais do Zé Luiz

Zé Luiz é um sujeito simples, fala mansa e sempre disposto.

- Zé!, regula aqui...

- Zé!, dá uma olhada nesse pneu...

E ele sai verificando, examinando a pressão, regulando um freio, calibrando um velocímetro, recomendando posturas, enfim monitorando, nos passando o que sabe.

Nossa homenagem a ele...



Os Pedais do Zé Luiz
(Paulo Boblitz - ago/2009)


Quando comecei a pedalar, pouco mais de um ano atrás, toda quinta-feira era com a turma do Zé, até que o tempo roubou do tempo, minha vez no pedal.

Éramos mais ou menos, uns cinco iniciantes...

Agora, quando o tempo me deu tempo para voltar, descubro que já são quase cinqüenta...

A turma evoluiu e até aumentou. Ontem vi mais uma iniciante, que logo reconhecemos pela sela baixa, pela falta de algum equipamento, rosto desconhecido e outros aspectos mais. Nesse dia, nosso percurso é mais moleza; as atenções respeitam o iniciante, e a ele ou a ela, são estendidas algumas facilidades, como de vez em quando um gás de reforço, a mão amiga que empurra o que as pernas não querem obedecer.

A iniciante de ontem saiu-se bem, e da próxima vez sair-se-á melhor; é a conseqüente melhora do que se repete, do que se insiste no condicionamento.

A paciência do grupo é outra virtude, pois quem pode imprimir, reprime-se em prol do conjunto; o mais importante não é o pedalar, mas sim o interagir, conversar em duplas pelas avenidas, conquistar outros ciclistas, dar gosto ao carro poder parar e nos observar passando, exercitando sua cortesia, todos agradecendo a gentileza.

Piscando seguimos pela noite, conhecendo novos recantos, até nos perdendo desorientados, pois que toda cidade tem seus segredos, seus periféricos escondedouros por onde nunca passamos.

Pedalar pela cidade é interessante, é instrutivo, é agradável e faz bem à saúde; damos exemplos e vamos conquistando, cada vez mais outros adeptos, outros iniciantes; a qualidade de vida agradece...

Para um começo, é só começar, claro que com uma bicicleta debaixo dos quartos, disposição de melhorar o corpo, conhecer amigos, sorrir e voltar alegre, mais irrigado e oxigenado, dormir um sono justo com muitos bons sonhos, pois que até o nosso Anjo da Guarda fica feliz.

Aquelas pequenas dores logo passam, nosso corpo se acostuma, se reforça para garantir a luta. Passamos a viver bem, de poros limpos sem gorduras, toxinas que foram jogadas fora, melhorando até o nosso cheiro.

O Pedal do Zé se expandiu...; agora também haverá nas terças, ele ontem já avisou, prometendo-nos novidades, surpresas que algum gaiato já adiantou, como pedalar de ré, soltar a bicicleta e correr atrás...

Surpresas à parte, mais uma opção para todos, mais instruções e macetes, ao som da brisa noturna refrescante, dos nossos ventos sempre amenos, nossas estrelas nos guiando, sem correrias, sem radicalismos, apenas pedalando em alegria, como se estivéssemos numa padaria, escolhendo sonhos ou biscoitos...

Tantos pedais..., só poderiam gerar energia...

* * *

Meu Filho casa, e minha Esposa enlouquece...

Os filhos são apenas criados; um dia criarão também os seus...

Pai, é somente Deus, para Quem um dia voltaremos...

A todos vocês, a minha felicidade.



Meu Filho casa, e minha Esposa enlouquece...
(Paulo Boblitz - 22/ago/2009)


Fazia pouco tempo que chegara em casa, onde não encontrara ninguém... Esposa e filhas no salão, filho casamenteiro resolvendo alguma coisa, e o outro filho ainda trabalhando.

Mais um pouco e escuto o ronco possante de uma Suzuki Hayabusa 1300 cilindradas, branca, linda a despertar paixões.

- Filho!?, cadê o carro? - perguntei, pois àquela hora, faltavam apenas duas horas para o casório.

- Vou de moto para a Igreja, e minha mãe vai na garupa...

- E ela sabe disso? - perguntei novamente.

- Sabe...; só você que não sabia, pois era uma surpresa...

Essa eu gostaria de ver..., minha esposa de vestido longo, na garupa de um avião...; balancei a cabeça em negação enquanto pensava que todo mundo havia ficado biruta...; uma mulher de 56 anos, minha princesa, na garupa de um bólide...

Nos arrumamos e de repente chegaram as três mulheres de minha vida; vinham do salão..., lindas..., embora eu goste mais quando estão naturais. Ajudei no fecho ecler da esposa, e mais um pouco a apoiava para subir naquela sela. Deixei os dois e fui para a igreja, distante apenas uns cem metros de casa.

Um ronco suave e calmo começou a chegar junto com o vento, enfim dobrou a esquina e junto com ele vinham meu filho, impecavelmente bonito e alegre, e a mãe dele minha querida, sentada de lado a abraçá-lo, uma Lady em seus encantos. Dei-lhe a mão para desmontar, enquanto a observava linda como quando a conheci, como quando um dia a vi chegar junto com o pai, para me ser entregue ao pé do altar, assim como ela agora faria, entregando nosso filho para uma outra vida, para mais vidas nos trazerem...

A noiva chegou mas continuou escondida; os preparativos se iniciaram com o Cerimonialista organizando os padrinhos; era chegada a hora da verdade.

- Rapaz..!, você tem certeza..? - brincou um padrinho com o noivo.

Abracei meu filho, dei-lhe um beijo e minha bênção; ele marejou em lágrimas, emocionado...

O entreguei à mãe, que o conduziria, e saíram os dois, dando-me as costas; há 35 anos, eu fazia a mesma coisa... Mais um pouco, eu entrava com a mãe da noiva.

Dois trompetistas deram início à marcha nupcial, e mais um pouco entravam um violino e um piano, orientando os passos da noiva, minha nova filha, linda e emocionada, a conquistar mais um sonho realidade... Em brilhos, misturavam-se a sua alegria e as pedras, pelos cabelos e vestido alvo; trazia um formoso buquê de rosas, rubras contrastando com um longo rosário de pérolas, que findava com nosso querido Jesus na Cruz.

Naquela cerimônia, nosso filho desposava a mulher que ama, ao mesmo tempo em que recebia Jesus, em sua Primeira Comunhão; poucos dias atrás, tinha sido a vez da noiva, ao ser batizada.

- Mulher..? Vamos casar de novo..? - perguntei à esposa, e ela me devolveu o mais gostoso sorriso.

Ali no altar, nossos filhos se prometiam na dor e na alegria, até que a morte os separassem, como um dia também fizemos...

Ao término, o Padre enquanto agradecia, virou-se para mim e informou que compraria uma bicicleta, para comigo também poder pedalar; queira Deus que seja ele a também casar meus outros filhos, a batizar nossos segundos filhos que chamam netos.

Comprei um bom vinho e comemorei...

* * *

Negão...

Trilha é alguma coisa um pouco mais complicada, sem as facilidades das obras de arte, que toda boa estrada tem.

Trilha lembra cavalos, que lembra carroças, que lembra as sendas por onde o homem anda e não corre...


A história?, aí embaixo...


Negão...
(Paulo Boblitz - ago/2009)


- Bate logo essa foto!, Negão..!

Acabáramos de sair do hotel onde havíamos pernoitado, reunidos na praça da planta de maconha, uma espécie de alegoria em concreto a enfeitá-la, representando um cacto verde estilizado, inscrito num círculo amarelo, que o João de Deus daquela forma batizou.

Estávamos ali para uma breve reunião, onde ouviríamos as últimas recomendações, e faríamos uma Oração ao nosso Pai, conduzida pelo pastor Raimundo. Se ele não for mesmo um Pastor, condensou muito bem todos os nossos desejos de um dia bom e feliz.

Haveria de ter a foto oficial, e depois que eu nela saí, posicionei-me para também fotografar.

E novamente, sob a demora de um bom enquadramento, agora o grupo inteiro me cobrava:

- Bate a foto, Negão..!


Foi o apelido mais inusitado que recebi, logo eu, branco rosado...

Já na partida, a descoberta de um pneu furado, pois Meire havia se encontrado com um prego. Após o reparo ágil, enfim partimos sob ameaças de chuva, com a temperatura entre os 10 e os 15 graus. Urgia que nos aquecêssemos.

Poucos minutos atrás, a descoberta do esquecimento do Omar, por ter deixado o GPS em casa, nada que fizesse muita falta, pois ele mesmo havia percorrido a trilha, duas semanas atrás. Mais à frente, num tranco mais acentuado, sua mini-filmadora de guidão saiu voando, o que produziu uma força tarefa a procurá-la, somente os melhores, pois teriam que retornar na trilha; foi encontrada sã e salva numa grota, ainda filmando.

Até ali tudo bem, até com o Sol querendo mostrar o sorriso. Estávamos em nossa primeira parada estratégica, com abastecimento de água, bananas, maçãs, e a revigorante troca de observações, somada aos sorrisos e às troças do caminho. Naquela altura, já estávamos significativamente respingados, da mistura água e barro...

Partimos sem a força tarefa que procurava a câmera, e a trilha foi ficando cada vez mais trilha, mais pesada, assim como pesadas já estavam as bicicletas, com tanta lama incrustada que, a cada descida mais vigorosa, pareciam-se com aquele cachorro molhado que se sacode, distribuindo pequenos torrões para todos os lados; chegaram a entrar em minha narina, em minha boca, e até nos cabelos...

A primeira grande vertente, todos tivemos que subir empurrando, pois até andando deslizávamos; barro mole se juntando nas tamancas, nas catracas, nas coroas, na corrente, nos pneus, e em nossos juízos...

Estávamos chegando em nossa segunda parada programada, onde havia um chafariz e uma fila enorme para lavagem das bicicletas... Já algum tempo que eu vinha subindo empurrando a minha magrela, e ali, atendendo ao corpo cansado, e recomendação do João de Deus, enfrentei o carro de apoio pela primeira vez.

Não é uma coisa boa; não nos sentimos confortáveis... Vamos ali para pedalar, e não para andar de carro, mas o lado prático da brincadeira é quem dita a regra, somado à responsabilidade de cada um, a conhecer o limite próprio, pois que no dia seguinte tem o trabalho, têm os afazeres, têm as pedaladas que, contundidos, não podemos fazer.

Brincadeira, ainda mais do tipo sadia, não é obsessão...

Em pouco tempo chegávamos no rio Capivara, um dos afluentes do Velho Chico, a correr manso sobre seu leito de areia lavada, esculpindo pedras, formando remansos, lugar de grandes enxurradas, por ser o escoadouro natural de tantas montanhas.

Ali paramos para remendar o pneu dianteiro do João de Deus, para o Omar perder as ferramentas, e para embarcarmos mais quatro bicicletas, afinal o carro de apoio estava lá para apoiar.

Dali em diante era só subida, looonga e empinada, que ninguém conseguiu subir montado, vencendo a trilha com mais lentidão. Nos encontramos no ponto mais elevado, onde bicicletas foram baixadas, cedendo lugar a outras avariadas. Ali eu larguei do apoio e segui em frente para mais outro trecho de subidas e descidas, onde Vovô, o mais velho do grupo, com 64 anos e uma disposição invejável, me acompanhava e perdia tempo, impaciente porque não pedalava...

Nessas alturas o Sol já dava as caras, quente sossegado a produzir muito suor. Juntamo-nos a mais dois retardatários e conseguimos chegar ao ponto de encontro, onde parte da turma já nos aguardava.

Ignorando o conselho de Vovô, bebi uns goles d'água, limpei o suor, e não subi no carro, dando início à mais longa descida desenfreada que já fiz; atrás vinha Vovô com os freios como se fossem buzinas, gritando queimando as tamancas, assim como eu também fazia, apertando com vigor aquilo que mais ou menos obedecia, soltando-os sempre que uma depressão maior aparecia, apenas para mais ganhar velocidade.

Deu medo entrar numa curva molhada escorregadia, noventa graus na medida em que a descobria, sentindo o lado oposto em franca aproximação, para mais um colher em distração, roubá-lo da pista em acidente, e despencá-lo sabe-se lá em quais trambolhões... Lá mais embaixo, descobri que outros também tiveram o mesmo apuro.

Uma descida que de tão longa cansou os braços, as mãos, o conjunto como um todo, pois tudo era liso cheio de argila mole, entremeado com pedras soltas e fincadas, valas cavadas pelas enxurradas, veios de rochas desnudadas, até que o Capivara mais embaixo nos aguardando, cedeu lugar numa ponte de um carro só. Se nossas bicicletas estavam enlameadas, tornaram-se limpas pelo efeito da trepidação, da centrífuga que não cansava de acelerar.

Uma descida em que tantas crianças nos acenaram, fazendo festa como se fôssemos de algum circo, nos declarando em vibração como se fôssemos algum programa ao vivo. Sorriam admiradas e encantadas, mais felizes por uma tarde diferente, num ermo onde nunca acontece nada...

Porto da Folha enfim era realidade, com seu povo pelas calçadas, pelas praças em bate-papos, a nos mostrar o caminho certo, cumprimentar em solene tom, a nós cavaleiros em cavalos estranhos...

Ali a última parada programada, apenas nove quilômetros nos separando do Velho Chico, das águas muitas depois de cruzarem quase um Brasil inteiro, palco eterno de grandes polêmicas, a mais recente a transposição... Mais bicicletas subiram para o apoio, por cansaço ou por algum defeito.

Nos hidratamos e seguimos adiante, leve descida à frente, onde uma mulher gorda à porta, num bom conselho nos avisou:

- num tômi cuidado nus freio não, viu!?

Mal acabou de nos avisar, já estávamos em plena curva à esquerda, onde o calçamento acabava junto com nossos sorrisos. Aquilo não era uma descida...; aquilo era uma longa rampa de lançamento, onde no final só nos faltaria sair voando...

Descemos, pois que não havia como pararmos..., e iniciamos finalmente o último percurso, com vento forte de frente, como se estivéssemos em franca subida, marchas sendo solicitadas, mas para tudo existe um limite; eu já não estava mais sentindo os pés; as coxas estavam em brasa, e o Negão vermelho que nem camarão...

João de Deus fez um sinal para o carro e, utilizando-se de sua liderança, pediu para que eu embarcasse, afinal faltava só mais um pouco, e aquela última subida mais à frente não faria muita diferença. Obedeci e nele embarquei, completando o quinto carona, seguindo devagar em frente, parando em mais um com problemas, bicicleta de pernas para o ar em algum reparo. O carro de apoio nos deixaria no rio e retornaria, assim foi determinado.

Chegamos todos em segurança, e apenas uma queda leve foi relatada. As quatro mulheres demonstraram ser feras, lá na frente entre os melhores.

O Velho Chico à nossa frente, a correr majestoso suave a levar vida, dadivoso sempre por onde passa, gerando energia, gerando lagos, gerando vidas em plantações mil, produzindo amor em quem dele se aproxima, aconchego em quem dele necessita, sossego em quem dele retira o sustento.

Tomei um belo banho gelado, num dos rios mais famosos do mundo, pois que o São Francisco só perde para o Nilo, porque nunca teve uma Cleópatra. Rio da unidade nacional, corre por 2.700 quilômetros, corta 5 estados brasileiros, banha mais de 500 municípios, empresta vida a mais de 14 milhões de habitantes, que em troca desmatam suas margens, despejam agrotóxicos, erodem como mineradores, roubam-lhe a água sem o menor pudor, do monstro que despeja em média no mar, cerca de 3 milhões de litros por segundo.

Almoçamos por volta das três da tarde, uma lasanha bem polpuda e recheada, um arroz todo fantasiado de coisas vermelhas, camarões gigantes chamados Pitús, fritadas, peixe frito e peixe cozido, pirão, saladas e legumes, frango cozido e as outras várias carnes, tudo ao som de muita conversa, muitas risadas, muitas histórias com outros detalhes, pois vários foram os personagens...

O cansaço se traduzia em calmaria; a façanha se expressava em bonito orgulho; a comida, devidamente temperada pela fome, descia extremamente saborosa, e o dono do restaurante em regozijo, demonstrava sua agilidade abrindo garrafas, fazendo saltar tampinhas a certa altura, até uma cair no copo da Cláudia, espirrando refrigerante como se fosse uma fonte.

Bicicletas arrumadas, conta devidamente paga, esclarecimentos preocupados do Sr. Caldas, proprietário do ônibus que nos transportava, partimos sonolentos para mais uma longa viagem, onde a camaradagem e a alegria continuaram, lentamente abafadas pelo silêncio, daqueles que se rendiam ao sono justo.

Enquanto escrevia, bebericava comemorando, o bom vinho presente do filho.

Já fui convidado a pedalar neste feriado da pátria, de Maceió (Alagoas) para Recife (Pernambuco), três dias à beira-mar, sem lama ou grandes subidas, sem pressa e sem horários, a curtir o sol, o vento, o cheiro do mar...

Ainda estou pensando se vou, pois todos eles são um pouco malucos, a começar me chamando de Negão...


* * *

Um belo almoço, com dois andares e um duplex...

Toda energia será renovada..., mas a que custo?

Uma pessoa feliz não gasta energias, ou não as sente partirem...

Trabalho, é uma força aplicada a um caminho..., e caminhos nos levam a vários lugares, que nos fazem felizes por gastarmos energias...

É só começar a ler, que descomplica...


Um belo almoço, com dois andares e um duplex...
(Paulo Boblitz - ago/2009)


A cada etapa concluída, ou a cada pseudo etapa concluída, trago uma Quentinha para cada empregado; eles adoram como se fosse um dia especial, como se estivessem saindo para almoçar fora.

De fato, utilizo-me de minha amizade junto à garçonete, ou ao garçom, quando lhes peço algo caprichado.

Uma Quentinha é algo parecido com uma frigideira, do tipo alta e grande, com um razoável volume a caber-lhe no interior.

As carnes, estas sim todas churrascadas, produzem o vivo intenso nos olhos deles...

Também fico contente, pois as obras andam, as etapas se multiplicam, o ânimo deles se renova..., mas não faço isso pelo vil interesse.

Estava eu recém chegado do restaurante, já entregado as três Quentinhas, quando o Pedreiro me chamou urgente:

- Seu Paulo!, Seu Paulo!, corre ligeiro aqui...; traz a máquina, depressa..!

Até me assustei e de fato larguei o que fazia, e fui até lá para ver o que acontecia... Encontrei o Pedreiro impedindo o Hortelão de comer, para que ele não estragasse o instantâneo...

Meu susto se transformou em admiração, e logo tratei da documentação, sob a troça do Pedreiro que, junto comigo, não parava de rir... Bati a foto e ainda me impressiono...

- Isaque!, desse jeito você precisa de um Alvará... - disse-lhe admirado...

- Alvará!?

- É..!, uma licença ou uma outorga, pois que para isso tudo entrar, até fica fácil imaginarmos, até porque você está com fome, mas pelo outro lado..., literalmente falando..., você é capaz de arrebentar com qualquer licença ambiental...

Até a Susie, a cadela do Nal, encarregado da granja, olhava hipnotizada para tamanho fausto...

E me sentei, e juntos ficamos observando aquela máquina, como betoneira, a traçar o alimento, triturá-lo, misturá-lo, e aplicá-lo ao esôfago...

- Diabo é quem convida ele pra almoçar... - comentou o Pedreiro Val.

- É que ontem chamaram ele de Refugo... - informou o Galponista, relatando o que os Apanhadores comentaram quando o Hortelão subiu na balança, pois Refugo é aquele frango leve demais.

O Hortelão apenas sorria..., e mastigava..., pondo a culpa no serviço...

- Seu Paulo...!, se o Ministério do Trabalho passasse agora, o sinhô seria multado... - comentou o Pedreiro.

Olhei para ele e concordei, balançando afirmativamente a cabeça, e aproveitei para perguntar:

- Isaque!, você tem certeza que vai conseguir se mexer?

Ele já bebendo água, 2 copos grandes e gelados, sorriu para mim, bateu umas palmadinhas na barriga, e fez que sim...

Proseamos mais um pouco, a Susie ganhou satisfeita alguns ossos, e partimos para uma tarde bastante produtiva...

Agora não sei se incremento na freqüência das Quentinhas, ou se as corto, pois daquele jeito, algum dia acontecerá alguma indigestão..., com justo eu, como responsável...

* * *

Máquina parada - Máquina enferrujada...

Não importa se você já subiu o Everest; se não continuar subindo, você enferruja...

Não importa se você guarda as botas com que andou o Caminho de Santiago de Compostela; se não as continua calçando, elas estragarão...

E como em bicicleta não podemos parar, o jeito é pedalar...

Experimentem uma pequena trilha, seja lá do tamanho que for, e nunca mais conseguirão se livrar da sujeira..., onde até o ralar da canela não dói...



Máquina parada - Máquina enferrujada...
(Paulo Boblitz - jul/2009)


Essa é uma lei bastante antiga, talvez anterior à Revolução Industrial.

Seja como for, ela nesse domingo funcionou comigo; comigo e com a minha bicicleta...

Estava há algum tempo parado, quando o amigo Omar fez o convite:

- Vai ser moleza...; bem leve...

Seis horas em ponto, estava no lugar combinado e logo o grupo inteiro foi formado.

Na noite anterior, havia feito uma pequena revisão na magrinha, como azeitar a corrente, encher os pneus com 50 libras (fica como se fosse de madeira...), instalar os acessórios, verificar freios, deixando-a pronta para a montaria e a partida.

Pegamos o caminho, plano e liso pelo asfalto, 20 a 22 quilômetros por hora, como velocidade de cruzeiro, o grupo coeso num domingo cedo e calmo.

Até ali tudo ia bem, até que o asfalto foi ficando feio, ficando feio, feio..., e mais um pouco estávamos num estradão de piçarra, mas até esse também foi piorando, até que finalmente entramos no caminho natural, como ele sempre esteve ali, trechos de areia molhada, trechos de argila molhada, um pouquinho de lama aqui, outro pouquinho acolá, e minha magricela a querer ficar grudada a cada metro percorrido...

Já naquele encontro inicial, antes de partirmos, não olhei com bons olhos de pedaleiro, quando verifiquei todos com pneus lameiros, tipo todo-terreno, e apenas eu com pneus lisos. Ali já pressenti o que me estava a aguardar...

Agora vinha a confirmação; uma desgraça..., em todos os sentidos...

Cercado pela bela Mata Atlântica, acariciado pela umidade matinal que ajudava a embaçar meus óculos, lá estava eu, escorregando, afundando, perdendo o equilíbrio, e perdendo o gás, o mais importante...

Uma turma de ciclistas, antes de tudo é solidária. Assim, fui ficando para trás, para trás, para trás..., e logo mais três se obrigaram a também ficar.

Sutilmente, depois de alguns minutos pedalados, fui informado que dividiam o grupo em três categorias: o da elite, aquele que eu já perdera de vista lá na frente, o intermediário, como o nome sugere, pelo meio, que eu também já perdera de vista, e o da carniça, que somente atrasa os outros dois primeiros...

O que já estava difícil, ficou pior ainda..., não pela minha categoria recém conquistada, mas porque comecei a rir... Não satisfeitos, começaram a contar os "causos" das várias trilhas passadas, o que só aumentou a perda de fôlego, pois sorrir sempre será um bom remédio, mas nunca no meio de um exercício...

Na primeira subida, que mentirosos juraram ser a única, bem antes do meio saltei e a subi andando - que fossem matar a outro...

Quando a coisa está ruim, nada impede que piore...; minhas marchas começaram, a troco do nada, a saltar me produzindo pedaladas vazias... Juntou-se a perda de gás, com a perda de energia...

Tem sempre um momento em que a gente dá um basta; o meu foi quando chegamos à cidade de São Cristóvão, antiga capital do Estado de Sergipe, na rodovia João Bebe Água, a combinar comigo, bebendo água como se fosse um camelo...

Comuniquei ao grupo que me esperava, elite e intermediária já postados na entrada para a outra trilha que seguiria até a BR-101, um outro tanto daquele já percorrido, que ali eu ficaria. Não sei por que, mas achei que eles sorriram...

Eu também sorriria se estivesse me livrando de um carniça...

Omar, João de Deus e Gilton, escoltaram-me até o arco da entrada da velha cidade, mas só me largaram depois que confirmei com o meu filho, o meu resgate com a nossa caminhonete. Ali fiquei e eles voltaram, para mais trilhas pelo meio do mato...

Mais um pouco, meu filho chegou e fomos até o ponto de encontro, onde tomaríamos um lauto café da manhã; metade da turma já havia chegado; a outra metade vinha pelo caminho. Comuniquei a todos que estava bem e fomos embora; cheguei em casa, tomei um bom banho e fui para a Roça.

Meu caminho é pela BR-101, e lá estavam todos eles, de volta agora num grupo bem maior, pois juntou-se a eles o grupo dos que seguiram para a Caueira, uma praia do interior.

Vistosos, suados, coloridos, bicicletas imundas, um a um fui cumprimentando com buzinadas, recebendo braços erguidos e sorrisos, uma camaradagem boa e sem igual, onde o que importa é a companhia, a solidariedade, o gastar energias e as conversas, pondo a saúde em dia, a mente sã, sobre dois pedais respirando ar puro, ao longe avistando sempre uma vista linda, ao fim, conquistando um "conseguimos", cheio de cansaço e orgulho.

Hoje mandei minha bicicleta para a revisão geral; amanhã a pego com outros pneus...

* * *

Amanhecer

É o amanhecer que a tudo renova, que a todos empolga, que nos faz recomeçar...

Assim são os alados; assim somos nós...



Amanhecer
(Paulo Boblitz - nov/2005)


A luz caminhava lenta entre as árvores, na medida em que o Sol se erguia devagar. A sombra cedia lugar ao claro, produzindo mais sombras, delineando contornos, estabelecendo formas, apresentando a vida.

Ao longe, os coqueiros mais altos ainda reclamavam aos céus, estendendo suas palmas como dentes-de-leão, esqueletos alongados contra a luz difusa que ao longe aparecia.

Bem perto de mim, a vida a conviver com a morte, o verde contra a raiz seca retorcida, uma amparando a outra, disputando o mesmo dia.

Acima, as nuvens revoltas, matizes do branco ao cinza, em rolamentos suaves caminhando, cerca vaporosa de Deus, separando a Terra do Céu.

Me virei, e a cascata que caía em rugido bom, lançava gotas que teimosas não queriam seguir em frente, formando um arco-íris das cores simples, detalhe do Grande Artista Criador.

O mar desencantava-se calmo por entre as rochas, enquanto a maré não vinha, deixando o verde das algas sobrepor-se ao branco das espumas. O Sol agora já brilhava mais, já tornava cega ou redonda, cada aresta do granito, em eterno confronto com a água que incansável lhes batia.

Andei um pouco, adentrei na mata que foi fechando, senti o perfume do orvalho, do seco que já foi verde, da terra úmida, as folhas caídas abrindo caminho para meus pés, a bruma fria a subir procurando calor, resfriando a fronte, a folha seca a cair, roçando a face.

Segui o caminho em aléia, que algum dia a Natureza plantou, esperando pelo meu amor, pela minha vista alegre, para em versos poder compor, a beleza da Terra só...

O passarinho no galho ainda acordava, sem medo e calmo me observava, esperava pela vida se movimentar, começar a trabalhar, caçar para viver, depois arrumar um par e procriar, passar a vida em frente, deixá-la se criar...

O frondoso caminho agora mergulhava na água, represada suave a encher o que algum dia já foi vazio, espelhada parada sem a brisa, mostrando margens para cima e de cabeças para baixo. No meio em destaque, duas rochas solitárias a conversar, a falar eternamente qual assunto? Não importa, pois o necessário é a companhia, que mesmo mudas, uma faz para a outra...

Abaixei-me e na água de leve toquei, com um dedo apenas encostando, produzindo nela um arrepio, doce onda circular em movimento, correndo em frente até em algo esbarrar, passar seu sentimento e informar...

Sorri para o singelo, a água também vivia, me dava de leve também resposta, baixando a temperatura da pele a tocar, resfriando o ar a entrar em minhas narinas, produzindo vapores em nuvens.

Três toscas árvores serviam, de ponte unindo vias, um guarda-corpo a amparar, quem por ali passar, tornando seguro o caminhar, sem medo do cair, juntando opostos que são lados, formando um caminho só.

Por baixo, pequeno regato a cantarolar, alegre correndo sem parar, sem saber que já encheu mais adiante o lago, firme trabalhador que não cansa, transporta vida morta lá de cima para cá, alimentando vida que aqui embaixo vive. Precisa se organizar, pois vemos galhos antigos nele presos, quem sabe de algumas vezes em que irritado, carregou tudo com muita vontade...

Acima a Lua que ainda não foi dormir, pois a noite já passou e ela continua, teimosa redonda e cheia, querendo brilhar, fazer frente ao outro vigia, agora do dia, nosso querido Sol. Quem sabe é prosa para pôr em dia, dos dois que não se vêem, pois quando um trabalha, a outra está a dormir...

É o amanhecer, que a cada dia se renova, não enjoa; a cada nota solta o som, suave e belo a toar, cada vida a tocar e acordar, ou fazer adormecer... É o amanhecer, prelúdio de um novo futuro a acontecer, mistérios que tornam a vida, linda de se viver...

* * *

Um Anjo em meu caminho...

Quantos já conseguiram ver um Anjo?

Hoje eu consegui...

Por que vocês não a conhecem?



Um Anjo em meu caminho...
(Paulo Boblitz - jul/2009)


O dia havia sido difícil; as contas não se acertavam, e o amor há muito que tinha ido embora...

Mais um dia longo que passava...

Saí sem rumo, sem destino, embora algo me empurrasse para encher a cara...

Passei na porta do primeiro bar, mas alguma coisa me segurou. Lancei-lhe um rápido olhar e segui em frente.

A noite se aproximava, sempre um momento mais veloz do dia, onde a luz se vai com pressa, outras luzes tomam seus lugares. Fazia tempo que eu perdera o brilho...

Os néons já iluminavam, bebidas eram servidas, sorrisos eram ouvidos, a noite enfim se afirmava e promessas mil seriam prometidas...

Estava há muito tempo só, remoendo as minhas mágoas, me afundando cada vez mais na fuga; eu fugia de mim mesmo, como agora sem saber, em que bar parar e beber, a que horas seguir para o meu refúgio, tão sujo e desarrumado como eu ali, sem coragem e determinação...

Busquei nos bolsos e nada encontrei; nada havia para uma bebida, nem tampouco para uma passagem... O jeito seria andar até chegar em casa, cansado me jogar na cama, adormecer em meio às minhas dores...

Mas enquanto eu estive a andar me remoendo, acabei me dirigindo para um lugar que não conhecia; tudo parecia calmo, luzes coloridas, um rio tranqüilo, gente feliz passeando a sorrir, e..., ali na minha frente um Anjo...

Ela se misturava aos brilhos, aos matizes e parecia prateada... Delicada, virou-se e sorriu, o sorriso mais meigo que já vi...

Deslumbrante e bela, cabelos longos, levemente esvoaçantes pela leve brisa que soprava...

Seus lábios eram finos e bem desenhados; sobrancelhas de muita personalidade; seus olhos eram profundos, enigmáticos e sorriam sem a ajuda dos lábios. Seus cabelos louros, sua pele alva, tudo era delicadeza...

Havia um bracelete prateado que combinava com todas as luzes...

Estaquei sem acreditar no que via, e logo me debrucei no parapeito. Não queria ser visto daquele jeito...

Em vez de seguir em frente, voltou-se e se aproximou, debruçou-se também na amurada, olhou firmemente para mim, lançou-me um sorriso carinhoso, e com seus dentes alvos sussurrou:

- Basta apenas você acordar...

E sumiu devagar, sempre a sorrir, alçando vôo no meio da noite, até que os seus reflexos se confundissem com as outras luzes da noite...

Naquela noite andei ligeiro sem parar, envergonhado cheguei em casa e tomei um banho, fiz a barba, a tudo arrumei, varri e guardei.

Com o Sol acordando, sentei na varanda e também despertei...

Um novo banho, roupas limpas, aquele Anjo lindo na mente..., respirei fundo e fui à luta... Na primeira esquina que dobrei, lá estava pendurada uma oferta de emprego; arranquei-a da porta e a vaga ainda hoje é minha...

Agora, toda vez que fico triste, lembro daquele Anjo, daquele sorriso lindo, de quanta sorte eu tive...

* * *