Trilha noturna Aracaju - Praia do Saco (Sergipe)

Existe contra, quando você quer fazer?

Existe dificuldade, quando você está disposto?

Claro que não...

Pois assim fizemos nossa segunda trilha noturna,

num breu danado de trevoso...


Trilha noturna Aracaju - Praia do Saco (Sergipe)
(Paulo R. Boblitz - jan/2011)

Nem a Lua, quis saber de nossa aventura. A maré cheia já nos avisara: se quiséssemos pedalar, que fôssemos pelo asfalto...

Partimos atrasados para a nossa trilha, segundo o relógio que trata das horas certas. Partimos na hora certa, segundo as convergências que nos inspiram...

No total, foram 2 pneus furados e uma cãibra.

Pedalar no escuro, 5 metros à frente iluminados, não nos permite saber a paisagem. Se subimos ou descemos, isso quem diz é a nossa força nos pedais.

Fiquei para trás, e pude ver aquela serpente tremeluzente vermelha. Fui para a frente, e pude ver aqueles anjos de luz, cada um com o seu próprio pedaço de chão...

As estrelas confabulavam e nos piscavam mais, Via Láctea inteira só para nós, esparramando-se em luz. Marte estava mais bonito do que de costume, intenso, amarelado avermelhado a nos tomar cuidado. A Lua, há muito se recolhera; o céu era só nosso, luzeiro a nos buscar a vista, o encantamento que na poluição da cidade, não temos...

Estava escuro mesmo...

Motoristas que nos ultrapassavam, vindos por trás ou pela frente, devem estar agora a jurar que nunca viram aquilo na vida deles...

Extraterrestres em nossas naves espaciais, quase 35, deslizávamos em suores pela noite fria, do vento que nos chegava do oceano, a nos brindar com fugazes relâmpagos, nossas naves mães, despistando suas presenças do resto dos humanos, que agora deveriam sonhar a sono solto.

Mexi meu manche para a esquerda, e a nave deslizou inclinada; mexi o manche para a direita, e novamente ela obedeceu suave.

O farol por trás, fazia minhas pernas parecerem virabrequins, como aquelas rodas das locomotivas, onde cada pedal era o eixo de uma biela, que, como disco voador, funcionava de ponta-cabeça.

Meus alforjes também davam um ar de nobreza para minha amiguinha, a emitir uma sombra bastante gordinha.

Numa parada para recomposição, de frutas e de águas, finalmente, de maneira oficial, deixei de ser Carniça - Helder a todos comunicou...

Galguei um degrau na evolução...

O Carro de Apoio, dessa vez, tirou Nota 10 na lição - não nos tirou o brilho de nossos faróis...

A brisa nos soprava com amor, e a escuridão se abria, nos deixando iluminar, cada giro que precisávamos executar. Meus amores cantavam, todas as músicas que sonhamos, no silêncio que apenas o vento, a corrente e os pneus, interrompiam...

Cronômetro, pulsação, velocidade, ciclos e outras tantas informações - tudo no escuro...

Valia apenas a sensação da alegria, do rumo sem horizonte, da posição desconhecida, do poder controlador das situações, desprezado e esquecido. Seguíamos apenas a faixa branca da direita, como se bandeira de alguma paz ela sincera, nos brindando como Guia.

O Sol, com raiva, nesse dia não nasceu para ser fotografado, escondido pelos coqueiros, pelas casas e pelas dunas. Quando apareceu, apenas nos ofuscou já sentados à beira-mar, esfomeados atrás do pior Café da Manhã imaginado. Calculamos que a Dona do restaurante não acreditou que chegaríamos assim tão cedo, quinze para as cinco de uma manhã abafada, dum Sol que fora traído por uma trilha noturna...

Difícil, alguma coisa nos quebrantar... Comemos o que nos foi servido, mantivemos os sorrisos e pedalamos mais 12 quilômetros para chegarmos até Porto do Cavalo, onde pegaríamos a escuna Perolina, a nos balançar em românticos devaneios sobre os rios Real e Piauí - ficou a nos dever uma parada na ilha da Sogra, transportando-nos diretos para Mangue Seco, na Bahia, onde arrumamos uma boa sombra, bons petiscos, geladas cervejas, conversas jogadas fora, bom banho de rio salgado...

Teve os Parabéns para Você para a Dona Carmen - Omar ficou devendo o discurso...

Ao todo, pedalamos 83,27 quilômetros, sem nenhuma baixa para o Carro de Apoio. Subimos 298 metros ao longo de todo o trajeto, pedalado em 5 horas e 34 minutos, creio que bem menos do que isso, pois sempre esqueço de desligar o pequeno aparelho que carrego às costas...




Teve a cena do Titanic, dessa vez a mulher amarrada por segurança.





Teve simpatia.






Teve o Fotógrafo Assanhado, um sujeito para lá de legal...




Teve a Natureza, que a tudo bem constrói.






Teve bigode da embarcação




Acho que almoçamos por volta das duas e meia da tarde, onde abusei do peixe, da moqueca de arraia, do arroz, do feijão, da farofa, da salada, do frango cozido e frito, da macarronda, do pirão grudento...


Foi um almoço generoso, mais do que precisávamos, fartura da terra e do mar que a tudo dá, Paraíso, para quem não conhece...

Lembram da Dona Lua que se escondeu logo no começo? Perdeu o melhor da festa...

* * *

Confraternização do Pedal Suado - 2011

Todo grupo é forte, quando unido...

Todo grupo é alegre, quando reinam apenas as felicidades...

Todo grupo desvanece, quando os interesses prevalecem...


Confraternização do Pedal Suado - 2011
(Paulo R. Boblitz - jan/2011)

Há quem confraternize, fechando o ano; o Pedal Suado comemorou, começando o ano - pedalando...

Saímos dos Arcos da orla, aliás, eles saíram; eu cheguei atrasado, e logo chegavam o Kanidia e o Adelmo. Partimos os três em busca de todos eles, mas o pneu do Adelmo furou; Kanidia ficou ajudando e eu segui em frente. Depois de vários quilômetros, os encontrava aos pés da nova ponte sobre o rio Vaza Barris, nos aguardando.

Todo encontro é gostoso, ainda mais quando estamos desgarrados. Partimos novamente, numa boa subida a vencer a ponte, e lá de cima pude ver Os Zuandeiros no Caldo de Cana. Não resisti e lá voltei para lhes desejar um dia feliz, pois estavam a comemorar os 25 anos de casamento do casal Jonas. Não participei, pois havia combinado antes com o Pedal Suado.

Tomei um Caldo de Cana com limão e segui em frente, e no meio da nova subida da ponte, o Gilton me alcançou, empurrando-me como se eu necessitasse da ajuda. Ele estava mais atrasado ainda...

Uma chuvinha fina nos acompanhava refrescando, e quando engrossou, acabei ficando para trás, parando para guardar tudo na bolsa do guidão. É muito gostoso pedalar na chuva, salvo por aqueles pingos que nos maltratam a vista; pedalar com os pés encharcados, também não é bom. A chuva forte acabou lavando a lama do circuito Costa Verde e Mar, em Santa Catarina, que por sua vez tinha lavado o pó do Caminho da Fé.

A chuva apertou por longo tempo, e acabei criando uma brincadeira: fiz uma funda na capa da bolsa do guidão, e logo ela encheu. A brincadeira era não deixar escapar a bolha que se havia formado, coisa difícil, pois nas subidas e descidas, a Gravidade se faz presente. O vento também ajudava, na fuga da pequenina lagoa, uma bolha que trepidava, não parava de se mexer...

Fazia tempo que pedalava sozinho, e vendo um Pedreiro a trabalhar, parei e perguntei se por ali haviam passado muitas bicicletas. Ele, respondendo ao meu Bom Dia, informou:

- Sim, uns quatro...

Em minha cabeça, a informação não bateu..., e pensei com meus botões: "como assim, apenas 4? Teria tomado o caminho errado..?"

- Uns quatro-centos... - sorrindo me pegou no trocadilho, aliviando minha tensão.

- Mais meio quilômetro, você já encontra a praia da Caueira... - terminou a informação.

Nos despedimos mais felizes do que estávamos, e segui em frente alcançando a todos eles, que suaram debaixo de chuva, porque chuva nenhuma é salgada. Todos já iniciavam o pedal de volta, e não deu para descansar nem tomar alguma coisa. Na mesma pisada, nem desci da bicicleta, fiz a meia volta e os acompanhei, mas alguns retardatários os obrigaram a parar. Aproveitei e segui em frente, afinal, já estava pedalando só, há muito tempo, mas Hsu me alcançou e pedalamos juntos até quase chegarmos à ponte novamente, quando numa subida, aquela máquina de pedalar desapareceu, Campeão Sergipano 2010 na classe dele, quarentão...

No meio da subida da ponte, lá me aparece ele no horizonte, retornando... Treinava, mas vinha me buscar - e me avisou:

- Olha a turma já chegando...

Enquanto ele continuava para buscar a todos, eu seguia deixando a bici me levar, afinal já estava da metade para lá, descida média, ventinho gostoso a refrescar, uma gota de sal a escorrer, animada com outra gotinha de chuva doce. Diminuí o ritmo, baixei para 16 km por hora, 14, 12, enfim 10, para chegarmos todos juntos.

Minha esposa e minha filha já haviam me buzinado na rodovia fazia tempo, e eu as procurava em algum acostamento; esperavam-me na entrada para Areia Branca, onde o Ricardo Hsu e a Lu têm a chácara, um cantinho gostoso de se morar, verdes claros, verdes escuros, carpas a nadarem, iguana a passear, macaquinhos curiosos na eterna arte de bagunçar, peru, ganso a sinalizar, acho que também patos e galinhas, cada um com sua linguagem a nos saudar.

Enfim chegávamos completando os 62,52 km, depois de 3 horas, 42 minutos, 43 segundos, 77 centésimos... Um cajueiro nos brindava com seus frutos arredondados e carnudos, doces como só o Nordeste consegue produzir. Um mamoeiro que muito bem produzia, biruta ou simplesmente genial, nos oferecia mamões bem baixo e bem acima. A grama verde e molhada nos convidava a ali mesmo nos deitarmos. As flores nos lançavam todas as cores, nos mostravam como a Natureza é bela.

Mas o homem da comida estava atrasado... A fome, braba...

Nos ocupamos em guardar as bicicletas, cada um a seu próprio modo, cada um com cada mania, ponta-cabeça, enfileiradas, encostadas conversando, solitárias, ou simplesmente largadas, claro, com delicadeza...



E quando o homem da comida chegou, já estávamos devidamente ocupados:



Araujo, um grande líder, ali esfriando as pernas, um sereio - era o que a Lu informava...








Dinha, a tomar banho frio, depois de fria, que Lu não deixava fugir...






Kanidia, que há tempos não pedalava, parecia sorrir das próprias dores...





Fábio Linhares, enamorado, não fazia muito tempo, havia cruzado por mim em sua bicicleta parecida como de bambu, também solitário, mas em sentido contrário - estava indo entregar uma encomenda...




Juca de branco, Guiné de preto e amarelo, Sebastião de bermuda azul, Fábio de chapéu ao contrário, curtiam, descalços, o descanso bom quando se pára...




Orgulhoso estava o Hsu, anfitrião a todos nós bem receber, a me presentear com duas mudas de Pau Brasil. Tentei lhe dar o Nim Indiano, mas ele me mostrou o mais lindo Nim que já vi, enorme e frondoso, copa larga a produzir boa sombra...

Beto, ao seu lado direito, o sujeito que bem regula bicicletas, mesmo dormindo. Foi com ele que brinquei, construindo a crônica "Invenções..."





Marcelo e Gilton, perdão por não retratá-los bem, mas a chuva atrapalhou, e a cerveja embaralhou...





A todos os outros que não citei os nomes, afinal os conheço de pouco, minhas desculpas, pois foram os responsáveis por um lindo passeio, por uma bonita confraternização, onde o que não faltou foram sorrisos e palavras boas.

Amizades, companheirismos, solidariedade, eis o que importa ao longo de um ano que se inicia, cheio de expectativas de boas trilhas, bons treinamentos, muitos suores pelas ladeiras que um dia se altearam, apenas para isso mesmo - nós as vencermos..., como venceram os marimbondos, quando os passarinhos não quiseram fazer seus ninhos...

Pedais, sempre dois, como pares que se auxiliam...

* * *

Pedal Roteiro da Luz 2010

Costumamos seguir os líderes.

Costumamos liderar.

Costumamos fazer mudar.

Que tal, então, agir..?


2011 está quase chegando; que ele venha para nós o vencermos, como essa boa ladeira que foi 2010, e de cima dele, conquistarmos todas as alegrias que merecermos.

Boblitz


Pedal Roteiro da Luz 2010
(Paulo R. Boblitz - dez/2010)

Quantas vezes, precisamos refazer as coisas? Eu já estava com a crônica feita, e num comando desastrado, a mandei embora...

Estou agora mesmo, olhando para o branco vazio do monitor... Talvez ela não estivesse mesmo boa. Talvez não estivesse à altura de todos vocês...

O jeito é recomeçar, o que já fiz nestas três linhas...

Mas eu lembro que tratava de todos vocês no fim da crônica que foi perdida, pois que não vi quase ninguém dos veteranos...

Talvez vocês devessem recomeçar a pedalar... É muito simples: basta pegar a bici e chegar no nosso ponto de encontro lá na 13. Recomeço a crônica do fim, o que ainda fresco está em minha memória, da cobrança que fazia a todos vocês, para que continuem servindo de incentivo, de modelo, de espelho a tanta gente que sempre se empolga ao nos ver passar...

Partimos como se fizéssemos parte da decoração da cidade, piscando em vermelho e branco-azulado, uma imensa árvore de natal ambulante, cheia de sorrisos e conversas...

Lembro que cheguei a escrever sobre as reprimendas que os Monitores nos fazem, como o "dois a dois, pela direita..!", que embevecidos nos esquecemos de obedecer...

O que para nós é festa, para eles é trabalho. Cuidam de nossa segurança, do nosso bem estar, do nosso roteiro, dos cruzamentos que temos que atravessar... Cuidam, sobretudo, de nossa alegria...

- Júnior!?, onde vocês estão..? - perguntei ao perceber que estava perdido...

- Estamos passando por você, pela rua de Capela...

Virei e vi todos aqueles que piscavam pedalando, pedalei e os alcancei.

Havia me atrasado fotografando a praça Fausto Cardoso, o Palácio do Governo, o Coreto antigo, a Ponte do Imperador... Havia sido absorvido pela magia da ocasião...

Desanimei quando me vi só, como aquele trem que deixamos de pegar, pois ele segue em frente, sempre em frente, não importa quem para trás ficou...

Pisquei solitário por alguns minutos, difuso diante das informações negativas das calçadas, de que um grupo tão bonito, por ali não havia passado...

Pisquei alegre, por me ver novamente entre todos vocês, cerca de 190 motivadores, pois quem nos vê sente vontade, é contagiado pela energia, resolve pedalar e modificar a vida...

Se você Veterano, que já pedala bem, acha que não precisa mais do Aracaju Pedal Livre, talvez devesse repensar melhor a sua participação. Basta lembrar que você é exemplo, que você é mais um a fazer diferença, que você, principalmente, pode mudar a vida de alguém, como um dia a sua foi mudada...

Volte a pedalar conosco, volte a abrilhantar um movimento saudável; sinta-se Formador de Comportamentos... Tenha paciência e descubra um dia, que você foi o gatilho da mudança - alguém começou a pedalar por sua causa...

Pensando bem, acho que a crônica perdida, já estava perdida... Essa ficou melhor...

* * *

Segundo Passeio Natalino de Aracaju

Natal é triste, porque nos mostra desigualdades...

Natal é alegre, quando só vemos as alegrias...

Natal só deveria ser a paz...


Como esta é a última Trilha antes do Natal, desejo a todos vocês, muitas alegrias. Desejo, sobretudo, que Papai Noel tenha sido bem generoso com cada um, principalmente no item Felicidades...


Boblitz



Segundo Passeio Natalino de Aracaju
(Paulo R. Boblitz - dez/2010)


Coube a mim, entregar um presente a um rapaz surdo-mudo, apenas 22 anos, a me receber com um sorriso enorme. Nos abraçamos fortemente, pois que os surdos se motivam pelas vibrações.

Cada um de nós entregou um singelo presente a cada uma das crianças daquela Instituição, olhares alegres, mas com fundos tristes, pois eles é que conhecem a realidade em que vivem.

Ao todo, passamos em 5 lares, cada um com seu próprio nome, não iguais aos nossos, onde tudo é nosso, até o amor...

Naqueles, o que é deles só é carência...

Pareceu-me ter sido o nosso Passeio Natalino do ano passado, mais alegre, mais espontâneo, mais cheio de cores. O desse ano foi mais formal...

Senti a falta de alguns amigos; senti a falta dos desacertos de nosso primeiro ano...

Mas é assim, como tudo à nossa volta, com altos e baixos. Talvez ano que vem, estejamos mais numerosos.

Chegando em casa, deparei com um desalento em meu correio - era uma boa amiga se queixando...

Quantas vezes já caímos? - lhe perguntei, respondendo...

E não levantamos em todas elas? - lhe respondi, perguntando...

E filosofei, recomendando: "durma bem, tome uma cachacinha mineira, de vez em quando acenda um charuto, mesmo que sirva apenas de incenso..."

E lembrei que muitas vezes, confundimos o cansaço com a derrota...

É só descansar, que passa...

Sorrir só não é bonito, quando forçado...

Talvez ano que vem, só devamos visitar os doentes, sem presentes, só sorrisos e presenças... Querem um conselho? O espírito é o da bicicletada...

Não somos guerreiros? Não estaremos descansados?

Ontem eu ganhei um abraço; o que hoje, irei ganhar..?

* * *

Luz...

Há luz no fim do túnel, se ainda for dia...

Há luz em cada ser, se ainda existe a boa vontade...

Há luz em qualquer lugar, se a queremos encontrar...

Há luz onde se possa imaginar...

Não entendo como não ficamos ofuscados...


Luz...
(Paulo R. Boblitz - dez/2010)


Faça-se a luz! E a luz foi feita...

Assim começa toda a nossa saga, quando Deus a tudo iluminou... Talvez tenha sido bem mais complicado, mas a luz explodiu, e com ela, todas as cores...

Um pontinho que brilha, segue e vai embora, e nunca mais retorna...

Tudo nesse Universo é luz. Somos também, pontinhos de luz, pois algum dia explodimos de algum lugar, nunca mais paramos de brilhar, e seguiremos por aí, quando enfim o dia chegar...

Olho a cidade, toda enfeitada, cheia de muita luz, não dessa que usamos para iluminar, mas das que nos servimos para fazer brilhar. Olho e me sinto bem, pois que todas elas transportam vontades que brilham também, nos fazem recordar, nos produzem tons diferentes daqueles em que brilhamos ao longo do ano.

Luz é vida, e vida é luz...

Assim, quando nos reunimos para coisas boas, o luzeiro se amplia, torna-se em farol e corre depressa para o céu, mais um ponto a piscar, nesse teto formidável que nos encanta, nos faz lembrar que não somos daqui...

Passa um risco, e mais outro... Devem ser estrelas crianças, brincando de pega-pega.

De repente um ponto brilha mais... Uma Supernova, como a mãe preocupada, a chamar suas estrelinhas para casa...

Passa outro risco; essas crianças são levadas...

Corremos o mundo num raio de luz, quando sonhamos...

Surfamos num rastro de luz, quando estamos amando...

O brilho fica cinzento e fosco, quando a tristeza ou a saudade se instalam...

Na felicidade, todas as luzes se misturam; é tempo de primavera...

Ao longo da vida, as luzes vão afunilando; é a maturidade...

Ao longo da vida, as luzes vão embaralhando. É tempo de colheitas, é tempo de descansos, é tempo de sal e doce...

Novas luzes que nos surgem, nossas crianças, nossos netos, filhos todos que amamos, luzes que não se comportam conforme a teoria, pois dão voltas, fazem curvas, param e correm, nos enchem os corações, e nos preocupam...

Essa noite, minha cidade ficou mais bonita, me pôs a pensar colorido, como a luz que pisca, ou que risca, nos rabiscos da mente, nossos tempos que passam, nossas correntes que giram, nossos caminhos trilhados...

Pedalei devagar, a sentir as luzes com os ventos, informando alegrias, gente abrindo presente, gente a receber um beijo, gente a receber a luz, gente como a gente, outras luzes, outros firmamentos...

Minha amiga estala e me dá um tranco, me lembra da vida, me avisa que os buracos devem ser desviados, os obstáculos contornados, as ladeiras vencidas, o suor enxugado, as luzes acesas para a vigília...

Por instantes paro de pedalar, deixo ela me levar, produzir o som entrecortado dos pequenos cravos, até que ela, cansada, ameaça parar, momento certo em que nos avisa com o vai e vem do guidão...

Volto a pedalar e tudo pisca, Papai Noel dá uma rasante, joga pó de estrelinhas sobre nós, uma gostosa risada, e como o raio, vai embora, para outros corações...

E você? Já reparou nas suas luzes? Já notou sua cidade mais bonita?

Se não, então pedale mais um pouco...

* * *

Natal Solidário 2010

Dar, verbo que nos transfere para os outros...

Doar, verbo que nos dedica para os outros...

Amar, verbo que nos afeiçoa a todos os outros...

Felicidade, contentamento íntimo de todos nós,

quando praticamos o nosso próprio bem...



Natal Solidário 2010
(Paulo R. Boblitz - dez/2010)

Senti aquela pequena mão a me puxar... Olhei para baixo e vi dois olhinhos me pedindo ajuda:

- Posso abrir..?

Eu sorri meio sem jeito, e lhe disse:

- Claro! Ele é seu...

E a pequena criança se pôs a tentar abrir o nó cego que deram na boca do embrulho, numa luta feroz entre a curiosidade e a vontade de brincar...

Papai Noel, não apenas um, mas muitos deles, muitas Mamães também, hoje todos foram reais...

Cerca de 150, não contamos, nem precisávamos, pois cada coração ali era dum tamanho grande. Ano que vem tem mais, e no depois dele, de novo...

Vi lágrimas brotando, vi sorrisos espontâneos, vi alegrias verdadeiras, tudo diante do maior contentamento que contagia a todos: o brilho de cada olhar, de cada criança a receber o que foi sequer sonhado...

A vocês de outros Estados, ainda há tempo de reunir bondade, ainda há tempo de produzir carinho em tanta gente carente... Não joguem fora essa oportunidade...

Ganhamos, cada um, uma cartinha simples, um desenho, uma vontade singela, uma canção, poesia de gente miúda, sonho de gente criança...

Ganhamos um agradecimento emocionado, não necessário, que nos tocou os corações...

Ganhamos vivas de tantas crianças que ansiaram por nossa chegada...

Ganhamos vida em tanta vida que brotou sincera e feliz, pequenos que ainda não conhecem a dissimulação...

Ganhamos a espontaneidade, o olhar curioso de festa, o esperar ordeiro na fila, triste espera enquanto os presentes estão sendo distribuídos lá na frente...

Ganhamos amor...

Por tudo o que ganhamos, ainda estamos em débito com todos eles, pois que até Deus, hoje deve ter ficado mais feliz...

E querem saber de uma coisa? Elas, as crianças, sentiram-se orgulhosas por terem sido lembradas. Por um momento mágico e especial, viram seus pequenos sonhos, realidade...

Por favor, olhem para os lados..., olhem ao redor..., olhem principalmente para dentro de si, descubram quanto bem, recebemos por fazer o bem, por praticá-lo... Por favor...

Se ainda não paramos para agradecer a vida que temos, por favor... Tem tanta gente necessitada...

O que para você pode parecer sem valor, sem serventia, sem brilho ou alegria, nas mãos de quem não tem, são tesouros...

Não sei dizer de vocês, mas hoje dormirei mais feliz, mais sonhador, mais irresponsável, mais utopista. Se vocês ainda não conhecem o que é doar, haverá o tempo de aprender...

Haverá o tempo de se dar..., pois que dessa vida em que verificamos tantas desigualdades, tudo é zero como resultante, e resultante é a conseqüência de todas as forças aplicadas, principalmente numa solução...

Papai Noel não é uma fábula. Papai Noel existe, principalmente, dentro de você...

Despertá-lo, só depende de você, Papai Noel..., Mamãe Noel...

Você...

* * *

Invenções...

Quando estamos cansados, o jeito é repousar.

Quando estamos ociosos, o jeito então é pedalar.

Quando estamos ociosos, mas não pedalando,

bem, aí o jeito é inventar...



 
Invenções...
(Paulo R. Boblitz - dez/2010)

Eu pedalava mas não conseguia sair do lugar.

Eu embalava, mas mesmo assim, rápido colocava os pés no chão para não cair.

Quando estava quase desistindo, passou um amigo e gritou:

- Tem que pedalar para trás!

- Como assim, para trás!? - perguntei, estranhando.

- É!, essa é a nova invenção do Beto...

E lembrei que havia colocado a bicicleta na revisão. Olhei para baixo e vi uma confusão de coroas, sistema complicado de voltas que invertiam o movimento dos pedais.

Montei novamente e pedalei ao contrário, e a bicicleta começou a andar para frente.

- Mas que invenção mais besta, sô!? - fiquei pensando, enquanto gaguejando pelo guidão, ia me deslocando.

Liguei para o Beto, ele atendeu e fui logo perguntando:

- Beto!, que peste é essa da gente pedalar pra trás?

- Ah!, é o novo sistema que inventei...

- Mas, pra quê? Do jeito que tava, não era bom?

- É que eu enjoei de regular esses câmbios... Aí fiz esse, que é pra gente mudar um pouco, né!? Gostou?

- Não! Onde já se viu pedalar para trás e a bicicleta andar para a frente?

- Então a gente desfaz, mas só daqui a um mês, pois estou viajando de férias...

Pensei num nome feio e desliguei. O jeito era continuar daquela forma até que o Beto voltasse.

Pedalei, pedalei e precisei mandar minha bicicleta para a revisão. Como o Beto já havia voltado, modificou meu sistema propulsor para o que era antes.

Quando montei e fui pedalar, precisei colocar os pés no chão para não cair.

- De novo!? - pensei.

Peguei o telefone e liguei para o Beto:

- Ô Beto!, você desfez a engenhoca..!

- Foi..! Você não tinha pedido?

- Mas eu já estava acostumado...

E começamos a discutir, até que o despertador tocou e acordei. Tinha sido apenas um sonho...

Rápido tratei de desenhar as coroas, o câmbio, algumas catracas..., daquele jeito..., ou teria sido desse outro jeito..? E fiquei matutando até que cansei, ligando então para o Beto:

- Beto!? Ó, tenho aqui uma invenção boa pra você fazer...

- O que é?

- Um sistema de pedalar ao contrário...

E começamos a discutir, aliás, estamos discutindo até hoje...

Alguém tem alguma sugestão?

* * *