Trilha Aracaju - Jatobá

Existem dias em que não adianta programarmos.

As programações saem na hora, no rompante.

Se tudo dá certo, ou tudo dá errado,

depende só de nossos improvisos,

e de nossos sorrisos...



Trilha Aracaju - Jatobá
(Paulo R. Boblitz - jul/2010)


"8 de julho, dia feriado em comemoração à independência de Sergipe; não haveria nada para se fazer..." - estava eu no dia anterior, pensando sobre o dia seguinte.

Peguei o telefone e do outro lado atendeu o Omar.

- Omar, vamos pra onde? - perguntei.

- Os meninos vão fazer a trilha pra Rita Cacete, via São Cristóvão...

- Mas eu coloquei 7,5 kg na garupa..! - ponderei.

- A gente vai acompanhando até São Cristóvão, depois volta pela João Bebe Água... - ele esclareceu

Dia marcado, dia 8 cedinho, todo mundo reunido ali no posto combinado, menos, claro, os que faltavam chegar... Peguei o telefone e disquei:

- Alôoo... - respondeu do outro lado ainda dormindo...

- Cabra Véio!, cadê você..?

- Tô chegando!, tô chegando...

Enfim todos reunidos, a turma seguiu para Rita Cacete e ficamos nós, Guaracy, Domingos, Aparecida, Rosita, eu e Omar, definindo para onde iríamos, pois um não queria ir para São Cristóvão, outro não queria ir para a ponte do Mosqueiro; eu apenas ouvia...

Jatobá!!!

E a sugestão foi aceita num piscar de olhos... A praia de Jatobá é deserta, próxima de Pirambu onde as tartarugas desovam e são protegidas, algumas casas de veraneio, vila rústica de pescadores, lugar onde a Petrobrás construiu o Porto de Sergipe, uma longa ponte de quase 3 km mar adentro, pois a lâmina d'água em Sergipe é muito rasa.

Cronômetros ajustados, hodômetros zerados, GPS ligado, lá fomos nós para nossa trilha leve, num dia também leve, uma quinta-feira bem no meio da semana.

Domingos, o Pato, aquele que imita o Pato Donald com perfeição, passou a imitar a ambulância do SAMU, sempre que chegávamos num cruzamento.

Num instante já estávamos no pé da ponte, uma bela ladeira com vento de frente. Guaracy, me ultrapassando, disse em tom de brincadeira:

- Agora é que você vai ver...

E vi, pois 7,5 kg não são 7,5 kg, pois na medida em que o tempo vai passando, a relatividade, não a do Einstein, mas a do Boblitz, vai pesando mais...

Calibrei minha velocidade nos 20 km por hora, afinal eu estava em treinamento, e logo fui ficando para trás. Vez ou outra, num trecho mais reto, conseguia ver Cida e Domingos; Omar, Rosita e Guaracy já deviam estar bem longe...

Mais um pouco, avistei Cida e Domingos parados; estavam me aguardando, pois logo à frente, quatro cães nos aguardavam, pois sem ter o que fazer naquele fim de mundo, nos atacar era um bom divertimento. Bebi um pouco de água, enxuguei o suor e encaramos as feras, eu primeiro, Cida no meio, e Domingos fechando a retaguarda, quando começou a correria, três cães que pareciam brincar de correr e latir, mas logo apareceu o quarto, o líder, que partiu decidido com os caninos à mostra, dando corda nos outros que a engoliram direitinho, tornando-se também valentes e ferozes.

Nessas horas, só existe uma alternativa: tentar acertar um deles com um bom pontapé, e foi o que fizemos a cada vez que um deles mais se aproximava; Pato, lá atrás, ao tempo em que chutava o ar, também vinha grasnando, quem sabe incentivando os cães para uma bela refeição..?

Enfim eles cansaram nos deixando em paz, pois aquele dia para eles deve ter sido um tanto agitado, duas caravanas perseguidas...

Seguimos em frente até encontrarmos os três à nossa frente, sentados sob a sombra de uma barraca, nos aguardando, bem próximos ao entroncamento que nos leva até Pirambu, ou ao Porto. Um cesto enorme com amendoins cozidos me chamou a atenção, e logo na mente apareceu a vontade de tomar uma isotônica, para alegria da Mocinha que já abria o isopor, mas os três, descansados, cortaram o meu barato; Guaracy até tentou me socorrer, mas comigo, acabou em desvantagem. Olhei para a Mocinha, que de sorridente ficara triste, e acabei mentindo: na volta eu tomo...

Para o mar, faltava um pulo, e assim, depois de passarmos por uma vila de pescadores, lá estava ele escancarado, espumando na arrebentação a nos convidar, um mundo d'água, dócil, meigo, e extremamente raivoso, senhor de tantos destinos e nações. Paramos para umas fotos e logo seguíamos novamente, eu agora com a minha tralha, mais fincado no chão, pois a areia nos quer prender o tempo inteiro.

Embaixo da ponte do Porto, nós paramos novamente, mais fotos de recordação, mais arrependimento por não ter levado a minha máquina. Foram 13,6 km na areia e já estava dando vontade de esvaziar as garrafas... No hotel à beira do mar, subimos por uma estradinha de barro, e mais um pouquinho, pegávamos o asfalto novamente. Num posto de abastecimento que tem uma lojinha, nos servimos de isotônicos e guloseimas; até ali, já havíamos percorrido 45 km - faltavam ainda, 12,8 km.

Foram 4h24 de trilha, um total de 57,8 km, e às 11 horas estávamos em casa. Simulei uma carga de 7,5 kg e já me decidi: cortarei minha bagagem até chegar nos 4 kg, deixando de levar o net book e 1 peça de cada item de roupa; vou reduzir as embalagens, até cortar um sabonete pela metade, mas só carregarei os 4 kg que o camelo aqui agüenta, pois camelo e caravana estarão subindo a serra da Mantiqueira, onde as descidas não contam, mas avisam que novas subidas estão logo no final de cada uma...

Cada uma..., mais dura que a outra...

* * *

Trilha de Paulo Afonso - Fazenda Lagoa Funda (ii de ii)

A força do homem reside no querer...

Remove montanhas, abre canais, represa rios...

A força do homem é mais antiga do que se imagina,

desde quando Ícaro quase chegou ao Sol,

maravilhado pelo mundo que Deus criou...



Trilha de Paulo Afonso - Fazenda Lagoa Funda (ii de ii)
(Paulo R. Boblitz - jun/2010)


- Prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...

Assim acordei, ao som de um pum rasgado na cama ao lado... Acho que o dono também acordou, creio pelas fortes trepidações que ondas sonoras ricas em energia, costumam produzir e propagar. Ainda farei uma pesquisa da existência de medições deles na escala Richter, resguardando-se é claro, as devidas proporções.

Virei para o outro lado e me protegi, caso viesse algum surto sulfuroso mafioso, já que das profundezas tinha origem... Não, não vou dizer o nome do Peidão...

Era algo em torno das 6 e meia da manhã; o dia prometia, pois além do jogo do Brasil com a Costa do Marfim, visitaríamos o Complexo de Paulo Afonso, tudo escavado em rocha pura, num tempo em que a tecnologia era bem bruta - muitos acidentes graves aconteceram...

Todo mundo acordado, todo mundo de barriga cheia, esperávamos apenas os retardatários - sempre existem...

Lá na calçada, Paulo Afonso acordando num domingo de jogo do Brasil na Copa, uma pequena loja abria as portas para vender as ferramentas de torcida, cornetas, buzinas, bandeiras de todos os tamanhos, muita zoada principalmente.

Omar comprou um diadema com duas pequenas bandeiras para a esposa Carmen, e Fernando, uma pequena corneta de três tons, dizendo ele ser para o filho, mas já soprando a plenos pulmões. Enquanto eles estavam envolvidos com as compras, eu puxei conversa com o dono de uma bicicleta Monark, barra circular, muito bem cuidada com grandes lameiros, dois cadeados para ninguém levá-la, uma pequena caixa sobre o guidão, que guardava um rádio portátil, uma antena estrategicamente instalada, e um velocímetro/hodômetro, a cabo. A bicicleta pesava duas da minha, e quando o dono, todo orgulhoso soube que éramos ciclistas, fez questão que experimentássemos a jóia dele, não sem antes ligar o rádio para que fôssemos escutando. Acabamos cada um, dando uma volta, conquistando mais um amigo feliz...

Enfim partimos em busca do Guia, pois só podemos adentrar ao complexo, devidamente acompanhados por gente habilitada, e uma usina hidrelétrica sempre é cheia de perigos, e precipícios, e turbilhões com milhares de toneladas por segundo.

Adentramos no complexo, não sem antes passarmos no que um dia foi a vila da CHESF, que como qualquer outro empreendimento de grande porte, em lugares ermos, foi obrigada a construir estrutura como cinema, hospital, cooperativa de abastecimento, clubes e principalmente moradias modernas e confortáveis. Construiu também um muro de pedras que ficou conhecido como o Muro da Vergonha, pois separava a vila da CHESF da vila Poty. Isso é História, interessante, e pode ser consultada nos seguintes endereços:

http://www.oschicos.com.br/blog/?p=410

http://www.folhasertaneja.com.br/especiais.kmf?cod=6326019&indice=0

Sem nenhum juízo de valor, afirmo apenas que tomamos nossas decisões segundo o contexto em que vivemos, o momento que enfrentamos, afinal, nunca se agrada a todos...

Nossa primeira parada foi no monumento meditativo, em bronze, do escultor Diocleciano Martins de Oliveira, que se baseou em poema de Castro Alves, simbolizando a luta permanente do Homem contra a Natureza, onde a Sucuri representa a Natureza, e o Touro, o Homem que está sempre tentando dominá-la.

À sua volta, o primeiro sinal de abandono, depois que o município assumiu o lugar, pois o que era um lago lindo, agora está cheio de mato e plantas aquáticas, fruto como sempre, do descaso das coisas que são ou que se tornam públicas.

A primeira coisa que o Guia nos chamou a atenção, foi para o paredão de contenção das águas, totalmente em concreto, a nos acompanhar pela esquerda durante todo o trajeto, desculpem-me a memória, o maior do mundo ou da América Latina.

Descemos do ônibus e o barulho das águas abundantes jorrando se fez ouvir; estávamos em época normal de vazante, mas quando o volume é de cheia, as comportas liberam muitos barulhos. Duas grandes bocas liberavam para o precipício do cânion, espumas brancas oxigenadas, a formarem um lindo mini arco-íris.

O cânion vem sendo formado há pelo menos 65 milhões de anos, muito tempo a polir, produzir arestas, quebrar, destruir aquelas todas pedras, que são de um colorido ocre especial, como se fossem de mármore. Quando descarreguei minhas fotos para o computador, achei que a minha máquina tivesse sofrido momentâneo defeito, mas comparando depois com as outras fotos batidas pelos amigos, constatei que a cor é singular, bela e cheia de personalidade - minha máquina havia sido perfeita...

Como não podemos ser felizes em cem por cento, descobrimos que o bondinho estava em manutenção; ele nos transportaria sobre o cânion, de um lado ao outro, dando-nos uma visão panorâmica das tomadas de água das usinas I, II e III. Adentramos ainda no túnel que nos leva às turbinas da usina IV, também parada em manutenção, onde deve ser grandioso o sentir trepidar do caudal a passar por todas elas. O Guia também não nos mostrou a Furna do Morcego, onde Lampião se escondia, porém, numa de minhas fotos, a grande gruta aparece...

Estávamos na ilha dos Urubus, eu a fotografar um bronze comemorativo à visita de Dom Pedro II, enquanto à minha direita, João de Deus começava a ler a poesia de Castro Alves:

- Enfim a terra é livre, enfim lá do caralh... Oxente!!! - exprimiu parando de ler.

Parei minha foto também, ao tempo em que me voltava intrigado para o que o João lia...

- Calvário!, João..., Calvário... - e caímos os dois nas gargalhadas...

Naquele canto, pelo outro lado do rio, Angiquinho, a primeira usina hidrelétrica do Brasil, construída com recursos próprios pelo cearense Delmiro Gouveia em 1913, industrial visionário que gerou energia para sua indústria de tecelagem.

Precisávamos partir, pois almoçaríamos no meio do caminho, onde assistiríamos o jogo. Devagar fomos percorrendo os meandros margeados por rica vegetação, cruzando precipícios através de pequenas e estreitas pontes metálicas, até desembocarmos no lago da usina IV, onde saboreamos um caldo de cano feitinho na hora.

Ainda faltava o reboque com nossas bicicletas, guardado na casa de Ada, desde a noite anterior, e para lá seguimos, onde encontramos a irmã dela, a Delma Campos, que não pôde pedalar conosco como estava previsto.

A casa é ampla e tem uma marquise no portão da garagem, o que nos obrigou a retirar as bicicletas do andar de cima do reboque, quando nela entramos naquela noite passada. Assim que chegamos, Bruno, Vovô, Fernando e João de Deus, acompanhados pelo Caldas, começaram os preparativos para se aprontar o reboque.

Bruno subiu e caminhou até o fundo, mas como o reboque não estava atrelado, como se uma gangorra, levantou a parte da frente, arriando a traseira, o que produziu um susto danado em todo mundo. Efeito contornado, embarcaram as duas únicas bicicletas, pois as outras estavam todas no andar de baixo.

Conversávamos sentados na varanda, eu, Omar, Rosita e Delma, quando ouvimos o João de Deus soltar a bronca:

- Quem foi o jegue que montou as bicicletas aí em cima, antes de passarmos pelo portão..?

- Você mesmo! - responderam o Omar e o Fernando ao mesmo tempo, enquanto ao som das tantas risadas, todo aquele trabalho era desfeito.

Num mutirão, interrompemos nossas cervejas para empurrarmos o reboque para fora, onde finalmente o atrelamos ao ônibus; nos despedimos e partimos, enfim precisávamos chegar em algum restaurante que tivesse uma televisão, o que só aconteceria logo depois de atravessarmos a ponte em Xingó.

Como as cervejas haviam sido abundantes, a bexiga, a minha, logo se fez presente reclamando. No meio da bagunça, avisei que precisava dar uma parada. Caíram todos em cima de mim, pois eu tinha que agüentar. Eu então agüentei...

- Pessoal, eu tenho que fazer xixi... - mais na frente reclamei, e de novo me pressionaram...

- Pessoal, se não pararem esse ônibus, vou fazer xixi aqui dentro!

Caldas parou e foi uma fila atrás de mim, cada um em busca de sua própria moita. Estavam todos também apertados...

- O único mijão sou eu, né!? - perguntei, enquanto que sem-vergonhas, apenas sorriam...

Partimos, e mais paramos atrás de moitas, para desespero do Caldas, que não entendia que tantas necessidades eram aquelas.

Enfim chegamos ao Restaurante e Churrascaria O Gamelinha, ao som de cornetas e cervejas; o jogo estava prestes a começar...

Fiquei na cabeceira e Fernando sentou ao meu lado, ele com sua corneta de doido. Gilton, mais adiante, sacou da sua, e o barulho se confundiu com as buzinas que vinham da África do Sul. Num instante, Nando, o proprietário, reavivou as chamas da churrasqueira, Rose sua esposa, convocou as moças Mônica e Micaelle, e começaram a se revezar trazendo os pratos. Damon e Talita, suas crianças, nos observavam com curiosidade e alegria, principalmente o Damon, que fazia festa a cada grito de gol.

Ao som de um almoço farto e gostoso, e ao sabor de uma vitória que foi se consolidando pouco a pouco, não sabíamos se torcíamos ou comíamos, bebendo em brindes aos belos lances, exaltando-nos a cada falta maldosa. No meu pé do ouvido, Fernando soprava aquela insana...

O jogo terminou, enfim partimos, agora todos mais alegres, pela vitória e pela barriga, num gostoso sono a sonhar com a próxima trilha. Começou a fazer frio e me cobri com um cobertor, logo pegando no sono como todos os outros. Acho que chegamos em Aracaju por volta das 8 e meia da noite.

Programa de índio? Não; apenas programa de ciclistas...

* * *

Trilha de Paulo Afonso - Fazenda Lagoa Funda (i de ii)

Vencidos somos quando nos entregamos,

Vencedores somos, quando conseguimos,

seja lá em que tempo for...

A vida é uma trilha, com descidas e subidas.

Nas subidas é que nos descobrimos...



Trilha de Paulo Afonso - Fazenda Lagoa Funda (i de ii)
(Paulo R. Boblitz - jun/2010)


Quando eu era menino, todas as noites em Fortaleza eram escuras. Oito e meia ou nove horas da noite, Puff..!, tudo ficava escuro...

Era hora então de colocar a cadeira de balanço feita de vime e palha, na calçada, para ver o satélite passar no meio da noite sempre estrelada, pois não havia a chamada poluição luminosa...

Naquela época, início da década de 60, os satélites ainda estavam em sua fase inicial, e passavam em suas órbitas baixas, velozes como se tivessem mil foguetes. Foi a época dos sputniks, em que sonhar, era o que mais fazíamos...

Paulo Afonso começou então a ser falada, pois seria nossa redenção das noites apagadas, com o complexo que estavam a ampliar. Num belo dia, a caminho da escola, parei para ver os imensos transformadores, afundando o calçamento por onde as carretas especiais passavam, pois Fortaleza é toda em cima de areia...

Paulo Afonso já era sonhada por Dom Pedro II, quando em 1859, visitando o local, determinava estudos para futura geração de energia. Hoje não tem mais o privilégio de ser a única, pois depois surgiram Sobradinho e Xingó, produzindo trabalho e riquezas para o Nordeste, tudo o que a energia representa de progresso...

Já se vão muitos anos do tempo em que por ali passava com a família, a caminho do Ceará, sempre parando a admirar os cânions, a ponte alta que sofre um terremoto quando passa um carro grande, o mundo d'água espelhando...

Hoje piso novamente em Paulo Afonso, mas para trilhar diferente, sentir seus ares secos, seu calor intenso de uma grande panela...

A sexta-feira havia sido toda chuvosa, e partimos por volta da zero hora do sábado, debaixo de leve garoa. Enfim inauguraria meus pára-lamas... Coisa de 5 da manhã, entrávamos na cidade de Paulo Afonso, uma ilha, cercada pelo rio São Francisco por todos os lados.

A cidade dormia sob um friozinho gostoso e chuvoso, acordando sem pressa, as pessoas em busca de seus afazeres, dando vida ao local. Encontramos a única lanchonete que ficava a noite inteira aberta, e ali aportamos para o nosso café da manhã - muito suco de laranja, pães com ovo, alface, tomate, queijo e presunto, café puro, café com leite...

Esperávamos pela Ada, nossa amiga ciclista e anfitriã, que lá já nos aguardava desde o dia anterior, pois que os preparativos foram muitos - um carneiro de 42 quilos...

Precisávamos chegar no rio Moxotó, divisa entre Pernambuco e Alagoas, nosso ponto inicial da trilha, rumo à Fazenda Lagoa Funda, onde conheceríamos Seu Nesinho e Dona Leda, pais de Ada. Daríamos uma grande volta para quase chegarmos ao mesmo rio, apenas a 19,5 km em linha quase reta, na direção nordeste.

Fazia já algum tempo que a chuva havia parado, restando apenas as nuvens pesadas passeando por sobre nossas cabeças, aliviando o sol e o calor. Enfim partimos, algo próximo das 9h30, confiantes cheios de energia, após uma noite de sono leve no ônibus do Caldas - agora era pedalar...

Tomamos o asfalto e seguimos, atravessamos a divisa que o rio Moxotó sinaliza, já subindo, o que seria uma constante, subirmos e descermos até os 36,1 km, onde começaria de fato o nosso purgatório, ângulo pouco no início, acentuado logo em seguida...

O Sol deu as caras, obrigando-me a usar meu boné legionário, e nos acompanhou implacável até muito próximo do final, quando fechou suas janelas, deixando que as nuvens tomassem conta da água sobre nós.

Em pouco tempo chegávamos ao acampamento da CHESF, entrada para Jatobá, onde reagrupamos e tiramos algumas fotos; já havíamos percorrido cerca de 16 km; mais 7 km, tomaríamos nosso banho no lago de Itaparica. Não tomei aquele banho, pois estava com muita coisa eletrônica nos bolsos. O Sol estava brilhando e aquecendo, e eu não tiraria a camisa. Saímos dali e nos abastecemos com água e isotônicos, o meu bem especial, uma latinha que produz "tisscchhh" quando lhe puxamos a alça; desceu revigorante espumante, matando a sede e suprindo amores...

Ainda faltava muito chão, principalmente dificuldades. Partimos em busca da antiga Petrolândia, hoje submersa pelas águas do lago. Ali não há o que se ver, a não ser quando as águas estão baixas, as ruínas querendo sobreviver... Seguindo em frente descobrimos pequena barraca onde experimentamos a mais doce das águas de coco; é o sal quem produz essa sensação. Quem quiser saber do que eu falo, é só espalhar uma pitada de sal sobre uma fatia de melão, e o sal fará o doce salientar, tornar-se mais presente. Uma vez escrevi uma de minhas favoritas: "O Doce do Sal" - está no blogue.

Dali dava para ver a longa subida ao longe; passavam três minutos do meio-dia... Montamos nossos alazões e partimos, pegando à direita para Tacaratu (Serras de muitas Pontas e Cabeças), onde o vento, parecendo ajudado pela grande vertente, nos bateu de frente, sem juízo, como se isso fosse alguma barreira...

Caldas nos aguardava e mais um isotônico espumante se fez necessário; há os que preferem as químicas... Olhei para frente, soltei um suspiro e parti decidido; não colocaria os pés no chão, a não ser para fotografar. Devagar todos foram me ultrapassando, menos um, o Marcelo, novato que as cãibras dominaram, dores infernais que nos querem virar ao avesso. Subiu a pé e lá em cima foi para o ônibus, onde respeitar os próprios limites é maturidade. Cândida, nos dois terços da empinada ladeira, preferiu dar um descanso, afinal, o apoio existe para isso mesmo.

Há muito que eu apenas via Vovô, Omar, João de Deus e Gilton, lá na frente, e eles não desapareciam, sinal de que a subida estaria terminada... Ao todo, foram 13,5 km, onde vencemos 427 metros, com vento forte frontal... Acho que paguei quase todos os meus pecados, se é que já não os tenha jogado fora em outras ladeiras passadas...

Vovô sempre vinha me buscar, aproveitando a vista do grande lago lá embaixo, um céu a se misturar e entrar na terra, a nos encher as almas de vibrações, transbordar nossos espíritos de Natureza, paixões que Deus Se alegra em nos ver experimentando, tanta grandeza que só Ele produz...

Foram dois patamares em que descobri que o fim ficava mais adiante, mais acima..., que finalmente chegou..., o Paraíso..., pelo fim do sofrimento, pela visão maravilhosa de quanto nossa terra é linda, onde se planta, colhe e se vive..., e eu ali, ainda vivo...

À minha frente, outra grande gostosura, uma descida cheia de curvas, onde minha máxima só não foi superior aos 64,8 km por hora, pois que uma carreta estava à minha frente, freando bem no meio da curva fechada... Descer é gostoso, e tudo o que é bom, sempre dura pouco. Tacaratu nos aguardava, enfeitada pelas festas juninas, onde visitamos a bela Igreja Matriz, onde, por alguns momentos, sentado sob a grande nave, agradeci ali ter chegado, pedindo para conseguir, vencer as outras quatro subidas.

Brincamos com uma espécie de mistura de Cacatua com Periquito, muito dócil e curiosa com o brinco da Ada, e partimos, agora o céu escurecia, pequena fúria a nos demonstrar, que ventos e temperaturas, quando se cruzam, produzem humores, a depois chorarem sobre nós... A primeira, de 62 metros, foi vencida, a segunda de 32 também, e a terceira e quarta, pequeninas, doloridas foram sobre o chão encharcado...

João de Deus ouviu um barulho e resolveu voltar; era o Caldas que ficara atolado ao atravessar o riacho, pois o reboque das bicicletas o fizera perder tração, dado o ângulo que adotara. Mais à frente encontrei Ada, Gilton e Vovô, acho que mais alguns, perdoem-me a memória, pois as pernas estavam quentes, muito quentes; os pés quase já não os sentia, a cabeça demorava a pensar...

Gilton e Vovô retornaram e seguimos em frente, pois o trator, Ada necessitava mandar. O trator foi, mas Caldas, com a ajuda dos que haviam retornado, desatrelou o reboque e conseguiu sair; Caldas ainda se perdeu, por desencontros que nunca são programados; encontrou-se novamente quando retornou e ali juntou-se ao trator, que aguardava.

Enfim todos chegamos à sede da Fazenda Lagoa Funda, casa do Seu Genésio Campos, Seu Nesinho como é conhecido, e de Dona Leda, pais da Ada que orgulhosa contava que havia vencido as ladeiras inteiras; não era só ela, eu também estava...

Seu Nesinho, com quase 85 anos, aposentado há quase 33 anos, de outro tanto trabalhado na CHESF, viu tudo aquilo do começo...; viu o homem domar a Natureza, produzir riqueza, mudar toda uma região, influenciar pelo Nordeste inteiro, quando eu ainda menino, ansiava pela eletricidade, antes só dos geradores...

Acho que já eram 4 e meia da tarde e, enquanto preparavam a mesa do almoço, tudo de carneiro, Buchada, Sarapatel, Costela Assada, Carne de Sol, Pernil, Pirão e mais o Arroz, o Feijão Tropeiro e as Verduras cozidas, Omar curioso perguntou ao Seu Nesinho se lá fazia muito frio. Seu Nesinho então respondeu:

- Não..., ele já vem feito... - e olhou sorridente para o Omar, que já explodia em sonora gargalhada, devidamente acompanhado por todos nós.

Gilton me mostrando uma casa de marimbondos no madeirame da varanda, perguntou ao Seu Nesinho se eles eram do tipo que mordiam...

- Não..., eles são do tipo que ferroam, mas só se mexermos com eles... - e de novo rimos da juventude do Seu Nesinho, cabeça boa, disposição e orgulho dos filhos que tem, do quanto já produziu, pelas tantas histórias que nos contou, enturmando-se rapidamente como se fosse mais um ciclista, mais um trilhador pelos caminhos de Deus, que ele com a família, trilham há muito tempo.

Falou-me do milharal, dos pés de feijão, do gado leiteiro, do poço salino, e prometeu me fazer uma visita, quando eu começasse a explorar o milho hidropônico para engordar boi; vou cobrar essa promessa...

Ao todo foram 73,2 km percorridos, em 7h19min11seg, 1.010 metros de subidas acumuladas; queimei 4.628 cal, tudo segundo a precisão do GPS Garmin, às minhas costas, que marcou cada segundo de nossa trilha, meu novo amigo nas horas duras... Descobri que o Caminho da Fé será mais forte do que o raciocinado, mais ou menos uma trilha dessas por dia...

Chegou a hora de partirmos, já de noite, pois pernoitaríamos em Paulo Afonso, distante dali cerca de 84 km. Desatrelamos o reboque, já devidamente com nossas bicicletas embarcadas, para que o Caldas pudesse manobrar. Num dado momento, convém aqui explicar que todos já triscados pelas cervejas, aqui não mais isotônicas mas por farra mesmo, Omar dá um grito por mim e o Gilton, cobrando-nos maior participação:

- Vamos empurrar essa geringonça... - o reboque necessitava vencer pequena rampa...

Enquanto empurrávamos, o Omar puxava, ganhando a parada, pois a rampa o ajudava...

- Péraí..! É pra empurrar ou pra puxar? - perguntou o Gilton.

- Eu acho que tanto faz... - creio ter respondido..., afinal já estava chamando de Ada, a Sara, irmã de Ada.

Parece mesmo que quem achou ruim, foram o João de Deus, o Fernando e o Vovô, lá na frente tentando guiar o que nossas resultantes daqui de trás produziam...

Enfim chegamos em Paulo Afonso, algo por volta das 10 e meia da noite, já meio dormidos e famintos. Nos instalamos e saímos todos, a pé, atrás de comida, pizzas com chopes cheios de espuma; houve quem tomasse coca-cola, enfim, há gosto para tudo...

O dia tinha sido cheio...

A trilha? Foi a mais bonita e simpática que fizemos até hoje...

* * *

Empenhos...

Empenho é penhor, é compromisso.

Empenho é insistência, pertinácia, teima, obstinação.

Empenho é diligência, é porfia,

não sendo fácil todo dia,

manter-se em disciplina, suar e mais vencer...



Empenhos...
(Paulo R. Boblitz - jun/2010)


Estou atrasado com relação aos meus amigos, mas foram muitas coisas a fazer... O atraso, entretanto, permitiu que mais amigos fossem citados.

Foi com agradável surpresa que na manhã de 31 de maio, lia a mensagem no telefone:

"CONSEGUI. Obrigado a todos pela compreensão, apoio e torcida"
Assinado: Tosta Iron Man

Ele nadou 3,8 km, pedalou 180 km, e correu 42 km, tudo no mesmo dia, conquistando o 1.376 º lugar. Ele é o armário à minha esquerda, hoje bem magro depois de tantos treinos.

Eu não sabia, mas em 23 de maio, sete dias antes, outro amigo também vencia a si mesmo. Marcus Luiz, de 47 anos, apenas correndo para valer há cerca de 4 anos, concluía, em 373 º lugar, a 27 ª Maratona Internacional de Porto Alegre. Ele correu 42,2 km, chegando na frente de 750 concorrentes, dos 1.123 maratonistas homens que concluíram. Nessa Maratona, também concluíram 230 mulheres de fibra.

Não havia passado muito tempo, outro amigo me chamava para mostrar na tela do computador, a colocação obtida na II Corrida Rústica da Zona de Expansão, desta vez em nossa cidade de Aracaju. Ele é o Rogério Santin, que aparece à minha direita, com a esposa Bibi, quando formamos uma equipe tempos atrás.

Na mesma relação, descobria ainda outros amigos, como o próprio Marcus Luiz, o Alexandre Cysne e o Beroaldo Justino.

Partilhei de três orgulhosos comunicados, três conquistas suadas...

A todos eles, os parabéns pela fibra, pela garra, pela determinação, pois que inventamos os desafios para superá-los, normalmente através de muito trabalho.

Eles não são atletas profissionais; praticam apenas nas horas vagas.

A propósito: todos trabalham na Petrobrás.

* * *

Trilha do Vovô

As gratas surpresas,

principalmente elas,

nos dão fôlego, nos impulsionam...

Aos nossos amigos, ao Vovô em especial,

todos os abraços que ele merece,

e o nome da trilha até Laranjeiras...




Trilha do Vovô
(Paulo R. Boblitz - jun/10)


Com um pouquinho de atraso e um céu encoberto, saímos debaixo de um friozinho gostoso, a caminho de nossa trilha de domingo. Em minha cabeça, já traçava o trajeto da primeira que fizera, mas trilha é trilha, onde o que importa é o pedalar, o conversar, os sorrisos diante das presepadas dos amigos à volta.

Assim, fomos subindo buscando sair da cidade, pelo asfalto, num domingo calmo e promissor. Nada até ali me produzira surpresas, coisas gostosas que aliadas às trilhas, sapecam o esforço com mais condimento...

Quando seguimos para dar a volta por cima do viaduto, cruzando a BR, enfim despertei da mesmice que experimentamos quando já conhecemos o que estamos a fazer.

Com o mapa embaralhado na cabeça, comecei a vislumbrar a grande subida para Areia Branca, mas Omar me cortou o barato - entraríamos bem antes, por estrada de chão, em direção a Laranjeiras.

Numa curva, antes de iniciarmos uma grande descida, o aparato da Polícia Rodoviária Federal, a dar cobertura a um caminhão guincho que resgatava um veículo leve capotado. Ainda brinquei com o Oficial, que se o motorista estivesse pedalando..?

Descemos na banguela, ar condicionado ligado, buracos à vista desviados, e num piscar, já estávamos lá embaixo, encarando outra ladeira para cima...

Lá na frente, os mais afoitos já nos aguardavam na entrada da estrada de barro. Um pouco para trás, descia da ribanceira, a pé, o Pedro Viégas com algumas goiabas - ele as adora...

Assim que entramos, Vovô parou todo mundo, pois o pneu dele havia furado. A equipe de socorro logo se juntou à volta e num instante, o remendo estava resolvido. Partimos já encarando uma bela subida, algumas valas desenhadas pela água, e por ali, no topo dela, aguardei Vovô que vinha acompanhado pelo Bruno e o Raimundo. Na retomada, fiquei sabendo da coincidência, a de que no ano passado, nessa mesma trilha, nessa mesma data, Vovô fazia 64 anos. Por um dia apenas, não se repetia o fato - o dia certo, é 7 de junho....

Mais à frente, todos já nos aguardavam reunidos, e lembrei que não tinha visto o Raimundo fazer nossa Oração de praxe. Perguntei e descobrimos todos que a havíamos esquecido. Num instante já estávamos em sintonia com o Pai, solicitando paz e proteção. Vovô aproveitou e deu a notícia, recebendo vários abraços e muitas alvíssaras, mais 65 anos pela frente...

Quando parássemos, brindaríamos aquela data com muitos copos do mais saboroso isotônico borbulhante dourado. Em casa, estariam a me aguardar meus dois filhos, nascidos no mesmo dia 6 de junho, com 5 anos de diferença - a lasanha seria especial...

Chegamos em Laranjeiras e a adentramos em direção ao centro histórico; no meio de um calçadão, encostamos nossas bicicletas e comemos e bebemos alguma coisa, além de um bom descanso regado à boa prosa, onde os 65 anos do Vovô faziam a festa...

Alguém deu a ordem, alguém sempre lembra de dá-la, e partimos novamente; estávamos em busca da Capela do Bom Jesus dos Navegantes - metade subiu, metade ficou debaixo de uma boa sombra, no meio dela, eu...

Partimos novamente, agora com a leve garoa a nos molhar, prometendo apertar, por conta dos ânimos das nuvens mais acima, cinzentas de pouca conversa... Apertei o pedal e alcancei a Cida, alertando-a do trilho molhado, pois se ele seco já é um perigo, molhado é traiçoeiro, dos mais perigosos... Continuei acelerando para avisar a Rosita, mas quanto mais eu gritava, mais ela também corria.

A chuva apertava e precisei parar para proteger minha câmera; deixei Cida passar e lá bem atrás vinham João de Deus e Domingos, o Pato (ele imita o Pato Donald com perfeição). Um barulho de metal no chão, me fez virar a cabeça; era o Pato, que para não me pegar em cheio, jogou-se de lado, como só se jogam os corredores motociclistas...

Num instante ele já estava de pé, sobre a bicicleta, e partimos juntos em frente, para mais adiante descobrirmos mais duas quedas por conta dos trilhos: Rosita e Paulo...

Todos bem, seguimos em frente, pois ainda havia muito chão a ser vencido. Quando cruzamos a BR, já no alto, o pneu do Fernando reclamou, nos obrigando a uma nova parada. Partimos novamente e, desta vez, o pneu da Cida também se fez presente. Raimundo recebeu um telefonema e precisou ir embora.

Mal iniciamos o pedal, Vovô parou para reparar o meio furo daquele pneu dele que havia furado, apenas meio furo, pois que na verdade, o pneu não havia sido bem embeiçado na jante, e nos trancos da estrada de barro, ele não conseguira notar aquele tradicional efeito de mancar.

Ao todo, foram 4 quedas e 3,5 furos, em 66,4 km de bons caminhos pedalados. Chegamos na nova orla, depois de atravessarmos e margearmos o rio do Sal, e ali enfim pudemos brindar, felizes como o próprio Vovô, seus bem vividos 65 anos - tem muito garoto novo que não pedala como ele...

Se soubéssemos, teríamos preparado um pedal especial, assim como Vovô nos é distinto, mas isso pode ficar para nossa próxima quinta-feira, ou nosso próximo domingo, um reconhecimento ao que o Vovô representa para o nosso ciclismo, seja no exemplo, no comportamento, na empolgação, seja na própria devoção, que o faz pedalar todos os dias, não importa a direção...

Mais um pouco e começamos a nos despedir, até que sozinho rumei no meu pequeno caminho de chegar em casa - mais dois parabéns a serem dados, mais duas comemorações...

* * *

Caminho da Fé

Como num dia,

em que recebi o chamado para Santiago de Compostela,

também o recebi para o Caminho da Fé.

Peregrino é, para quem gosta de definições,

aquele que peregrina, estranho, estrangeiro...

O restante da definição, é algo muito particular, que só a mim pertence...



Caminho da Fé
(Paulo R. Boblitz - jun/2010)


Vivo dizendo que nossos Anjos da Guarda confabulam; enquanto dormimos, eles telefonam entre si e combinam nossas idéias. Depois nos sopram, produzindo coincidências...

Omar recebeu uma mensagem do Paulo Ribeiro, lá do Recife em Pernambuco, repassando-a para mim. Topei, ele topou, mas nossas datas não bateram com a do Paulo Ribeiro. Faltava arranjarmos mais dois companheiros, quer dizer, mais um, pois que João toparia sem pestanejar. Arrumamos, mas ele desistiu... Isso tudo aconteceu em meado de janeiro de 2010...

Assim, ficamos os três, eu Boblitz (58), João de Deus (50), e Omar Aguiar (58), certos para trilharmos o Caminho da Fé. Mudei minhas férias para mais tarde, Omar antecipou as dele, e João, patrão dele mesmo, já estava marcado com o que marcássemos. O primeiro passo, dado estava, além daquele de nossas decisões...

Compramos nossos alforjes e nossas bolsas de guidão, na Arara Una (www.ararauna.esp.br), bonitos e bem construídos, dos tamanhos exatos necessários, funcionais e muito bem adaptáveis às bicicletas. O atendimento foi muito preciso, principalmente quando nossa encomenda foi extraviada pelos Correios.

Faltava ainda comprar dois equipamentos GPS GARMIN Edge 705 Bundle, excelentes, com uma precisão exemplar, e recorremos à Seahead Sports (www.sportsonline.com.br), onde o atendimento foi também perfeito. Com eles, teremos a nossa história depois, por onde passamos, por onde nos perdemos, por onde nos despencamos em desabalada carreira... Guardaremos nossas preciosas altimetrias...

Paulinho, do Sampa Bikers (www.sampabikers.com.br), gentilmente nos forneceu nome e contato de uma Van em São Paulo, a nos transportar com nossas bicicletas, de Guarulhos até Tambaú (início por ele recomendado), e depois de Aparecida até Guarulhos. Recomendou-nos ainda a TAM, que transporta a bicicleta montada, exigindo apenas que o guidão esteja alinhado com o quadro, os pedais retirados, os pneus esvaziados.

Acertamos as datas, compramos as passagens e os bagageiros - as bicicletas criaram personalidade, ficaram mais senhoris...; falta comprarmos pequenos itens, portanto, já estamos prontos para a peleja, nossa primeira, pois ano que vem teremos outra.

Não havendo mais o que se fazer, resolvemos então brincar com o Google Earth, esse maravilhoso programa gratuito que nos possibilita ver a Terra do Espaço, como se estivéssemos numa nave espacial. Omar arrumou um Diário de Viagem rico em detalhes, do Autor e Peregrino Oswaldo Buzzo, e nos debruçamos sobre o monitor, digo, sobre a trilha.

O que parecia fácil, exigiu de nós aquele espírito detetivesco, e algumas discussões foram necessárias sobre o lógico e o não lógico, face tantas artérias numa região extremamente montanhosa e linda. O caminho foi saindo, dia a dia, um de cada vez, açoitando-nos a ansiedade, fustigando nossos desejos de que a data logo chegue. Jogamos nosso plano, ainda que provisório, pois a realidade e as Setas do Caminho é que o regerão, na região que um dia sofreu com as indigestões furiosas de uma Terra em transe. A data está próxima...

Teremos treze dias para queimarmos nove etapas maravilhosas, que gostaríamos de partilhar com todos vocês:

1 - Tambaú - Casa Branca (São Paulo)

2 - Casa Branca (São Paulo) - Poços de Caldas (Minas Gerais)

3 - Poços de Caldas - Águas da Prata (Minas Gerais)

4 - Águas da Prata - Barra (Minas Gerais)

5 - Barra - Borda da Mata (Minas Gerais)

6 - Borda da Mata - Consolação (Minas Gerais)

7 - Consolação - Luminosa (Minas Gerais)

8 - Luminosa (Minas Gerais) - Campos do Jordão (São Paulo)

9 - Campos do Jordão - Aparecida (São Paulo)

Pedalaremos praticamente nas nuvens, por sobre a Mantiqueira, onde iniciaremos aos 700 metros, chegaremos aos vários 1.800, e terminaremos por volta dos 550 metros, numa montanha-russa natural, de tirar o fôlego...

Não sabemos dos ventos, mas estamos cientes da muita chuva que cai pela região. Conheceremos gente muito boa, costumes diferentes, hospitalidades amorosas, sabores os mais instigantes, vistas de outros mundos...

Não é a Fé que procuramos no Caminho da Fé, mas com certeza sairemos dele com mais Fé do que entramos, pois trilharemos as sendas cimos afora, a dividirem as montanhas em duas, a misturarem os horizontes que se sucedem, a nos possibilitarem a visão simplória dos montanheses, porém verdadeiras, por conta das atmosferas em que vivem.

Não seremos heróis, embora muita energia e força de vontade para vencermos as tantas subidas, e dores no dia seguinte, sejam necessárias. Não seremos desbravadores, pois eles já o foram há séculos atrás. Seremos apenas ciclistas, fazendo o que gostamos, admirando as belezas de nosso Deus, mais três entre tantos milhares que já o trilharam, portanto, nada demais, porém, mais ricos em sabedorias, em serventias, em humildade, em sorrisos, em corações plenos, pois que fomos e fizemos...

Nós sentiremos os perfumes da terra, os humores, nossos e da região, os ares de nossas almas, pois suspiros não faltarão diante das tantas grandezas a que não somos acostumados, pois vivemos para trabalhar, para produzir, como formigas exemplares...

Por treze dias, esqueceremos que somos da Terra...

Não estamos a fazer propaganda; apenas queremos que vocês, ao tempo certo de cada um, experimentem o que a vida proporciona, dá de graça no ensinamento, através dos valores que se conquistam, sempre através do trabalho...

Estaremos trabalhando, moldando nossos espíritos, dominando nossas fraquezas, enriquecendo nossas almas, pois lá, como em qualquer outra Natureza, tudo existe para ensinar, tudo é para se aprender...

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