Trilha Poço Redondo - Grota do Angico

Injustiças, caso de vingança,

teriam levado Virgulino ao cangaço...

Não importa se verdadeiro ou falso,

a razão e a própria vingança, extrapolaram...

Se antes houve motivo, depois tornou-se vulgar,

pelo sabor do poder provado, da maldade aflorada,

da arrogância de todo e qualquer ditador...



Trilha Poço Redondo - Grota do Angico
(Paulo R. Boblitz - mai/2010)


Pei!, Bang!, Ra-ta-ta-ta-ta..!, as balas começaram seu triste trajeto...

Pou! Tuííiing..!, resvalou uma na pedra, levantando faísca...

Era a Volante de Macacos, como eram chamados por Lampião, recém chegada pelo velho Chico, numa madrugada fria com nevoeiro, a dar tiros impiedosos na maior gangue de cangaceiros de todos os tempos. Lampião e seu bando, finalmente seriam derrotados e dizimados, já enfraquecidos pela grande sova e vexame sofridos em Mossoró, quando foram recebidos à bala e na coragem. Mossoró foi a única cidade que lhes disse "Não"; saíram dali corridos e bastante desfalcados, enfim espantados com tamanha reação de outros homens, pacatos, muito valentes.

Esse tiroteio aconteceu em 28 de julho de 1938, e de lá para cá, quase 72 anos depois, todas as histórias são controversas; prefiro estar entre os que o julgam um malfeitor sanguinário, a lhe dar asas de mito heróico. Para mim, foi um fanfarrão que fugiu à verdadeira luta, quando Padre Cícero lhe forneceu armas, munição e a patente de Capitão, para combater a Coluna Prestes. Gostava mesmo era de infundir terror junto aos menos numerosos..., aos desarmados..., gente simplória que já enfrentava as agruras do sertão (http://pt.wikipedia.org/wiki/Virgulino_Ferreira_da_Silva).

Três horas da manhã, debaixo de outro tiroteio, acordo com as balas que me chegam do despertador; era preciso estar no ponto de encontro às 4 da manhã, pois o início da trilha distava 180 km de onde partiríamos. Estávamos ainda arrumando as bicicletas, quando a chuva atrapalhou, interrompendo o serviço.

Por volta das 5 e quinze, o Sol já dourando onde nascia, partíamos sonolentos num dia que muito prometia, a julgar pelos nevoeiros que avistávamos ao longe, nuvens baixas e carregadas acariciando as partes altas das montanhas. Pelo meio da viagem, paramos para esticar as pernas, desestimar as bexigas, comermos algo a nos propiciar energia para mais um pouco à frente...

Pouco antes de Poço Redondo, o maior município sergipano, onde nasce o rio Sergipe, Caldas lançava âncoras para que desembarcássemos nossas bicicletas. Tudo garantido, equipamentos ajustados, água gelada armazenada, Oração a garantir a proteção divina, saíamos pedalando às 9 horas de uma manhã nebulosa.

Atravessaríamos uma grande região hoje distribuída em lotes, para centenas de famílias sem terra, como se o local sempre fora de polêmicas..., ali, saindo do asfalto, numa subida íngreme por terreno bruto com afloramentos rochosos, onde a realidade é sempre dura, não importa se chovendo ou fazendo sol, pois que caatinga, só com gibão-de-couro...

Mandacarus de um lado, macambiras de outro, vegetação arbustiva rala entremeada de vários tipos de cáctus, fomos seguindo sob um perfume suave de flores brancas visitadas por beija-flores, simples como a paisagem, que nos devolvia o verde, porém nenhuma produção - é a chamada seca verde.

Cruzamos por lotes irrigados, quiabos enormes sendo produzidos numa terra forte, argilosa ocra, que não produz porque não tem água. Assim, fica fácil entendermos pessoas às janelas dos sertões, vendo a vida passando, pois não há trabalho sem água, que assim como fixa a planta profunda, também enraíza o homem...

Chegamos ao riacho Jacaré, com pedras e fundo para o atravessarmos pedalando. Preferimos contorná-lo pisando em algumas pedras salientes, bicicletas às costas, mas pelo menos um dos pés tivemos que mergulhar na água, o que nos produz desconforto...

Seguimos adiante e alcançamos a Fazenda Logradouro, atravessamos a porteira e continuamos pelo agora caminho oficial até a Grota do Angico, lá onde Lampião e Maria Bonita tornariam famoso, um buraco cavado pelas águas a caminho do São Francisco, cheio de pedras, paus tortos, espinhos, e com certeza muitas cobras e aranhas, a jusante da grande represa da Hidrelétrica de Xingó, a dividir Canindé do São Francisco em Sergipe, e Piranhas em Alagoas, região de cânions, selvagem como um dia foi a vida dos cangaceiros.

Aportamos com nossas naus a pedais, em pleno Memorial dedicado àquele dia, onde está a se construir um museu. Largamos as bicicletas à sombra e abrigadas da leve chuva que já caía fazia algum tempo, enveredando pela senda cheia de pedras soltas, cansanções, macambiras, cáctus diversos, mutucas, cipós, galhadas, numa tortuosa maneira de contornar obstáculos, que ainda hoje, depois de tantas idas e vindas, continua agressiva e muito quente.

Em fila indiana fomos seguindo, alguns comentando sagas de Lampião e seu bando, outros narrando detalhes da emboscada, a maioria apenas ouvindo... Nossa caminhada, cerca de 1 km, terminou ao meio dia, abruptamente como todas as coisas acabam, quando nos deparamos com um grupo de turistas que haviam alcançado a Grota vindo a partir do rio, assim como fez naquele dia a Volante alagoana. Um jovem Guia palestrava relatando os acontecimentos, e nos juntamos ao grupo, silenciosos e atentos, pois aquilo era aula de História.

Ao final, a senhora já idosa, emocionada, virou-se para nós e disse ter 8 anos quando tudo aquilo aconteceu, terminando cantando uma pequena trova da época, misto de evocação ao mito, misto de temor da época, quando menina ouvia, dos mais velhos que do rio dependiam... Fomos embora em direções opostas, para eles uma breve descida até a escuna que os aguardava, para nós, uma difícil subida com o Sol a lume.

De volta às nossas bicicletas, alguém deu a idéia e resolvemos descer até o rio, onde um banho gostoso na água anil necessário se fazia, mas antes, sabores especiais... A matar a sede, isotônicas efervescentes bem geladas, sabor malte e lúpulo, carregando consigo goela adentro, nacos de peixe Piau frito na hora, a dedos nus, tamanha a gastura de nossas barrigas, há tanto tempo sem comida...

Mais um pouco chegou o Raimundo com uma jarra de farofa, arrumou mais uma mesa e logo nela instalou outro panelão cheio de Limpa-Pedras, peixe parecido com o Náutilus, aquele submarino de Julio Verne. Não bastasse, mais um panelão com galinha caipira cozida, suculenta com muito molho, do jeito que o diabo gosta - cheia de gordura...

Fomos ao banho..., o rio majestoso e calmo, domado pela represa mais acima, que roubou suas águas, abaixou seu volume, mostrou suas entranhas antes submersas, agora como se ilhas vulcânicas, nascidas das ígneas profundezas, arrebatando belezas em contraste.

Os Zuandeiros fora d'água, dentro d'água, como se peixes pedalando...

Não tínhamos tempo e logo nos arrumamos, afinal aquela ribanceira que havíamos descido, agora necessitava ser galgada, e partimos... O céu escurecia com nuvens cinzentas...

Vovô Djalma, agora bonitão com óculos escuros, comentou comigo que aquilo não se fazia nem com inimigo. Olhei para ele e concordei, olhando para cima, verificando que não tínhamos chegado nem na metade... Para piorar, aquela chuva prometida enfim caiu, por um bom longo tempo, a pingos generosos e afoitos. Até o carro de apoio, ligada a tração nas 4 rodas, deslizava para subir naquela argila cheia de graxa, preguenta e lisa...

Em pouco tempo nos chovia de ambos os lados, de baixo levantando a lama, de cima a nos tentar lavar a lama; só nos restava pedalar, enquanto aquelas duas águas não se entendiam...

A hora já estava avançada e uma nova abordagem foi adotada; abreviou-se a trilha e fomos em busca do Caldas numa outra direção, num assentamento onde hoje se tenta implantar desde 2004, denominado Jacaré-Curituba, irrigação com as águas de Xingó. Um a um fomos chegando até onde estava o ônibus do Caldas, distante apenas 800 metros da rodovia, trecho em que ele conseguia trafegar.

Enquanto a vida passa sem muitas novidades, de repente, do meio de uma tarde chuvosa e de muita lama, o pequeno povoado viu surgirem ciclistas lá de baixo, subindo, deslizando, arfando mas pedalando, a se juntarem ao redor de um reboque não menos estranho. A trilha terminara; agora começava outra trilha, a de entrarmos no ônibus do Caldas, completamente limpos e asseados...

Nessas horas descobrimos que solidariedade não tem status - ela sempre depende do amor, do querer o bem, do ajudar alguém...

Num instante, já estávamos todos gastando a pouca água que chegava à torneira da casa ali em frente, que fez questão de nos ceder os aposentos para que trocássemos nossas roupas molhadas, por outras secas. Num instante, a pequena casa humilde se viu cheia de rastros de lama, do nosso ir e vir. A hospitalidade do Nordestino não tem tamanho, nem tampouco preço, mas mesmo assim, juntamos pequena coleta, cuidando para não os ofendermos, pois recebemos tudo aquilo de coração.

Nos despedimos e às quase 6 horas da tarde, almoçávamos em Monte Alegre de Sergipe, onde saboreamos um rodízio fora de hora, regado ao tom de bem geladas isotônicas dadivosas vitaminadas e douradas, e de bombas gaseificadas coca-cola, aciduladas de efeito retardado, onde travamos algumas batalhas, sem tiros, para tentar comprar Cocada de forno, pois não havia suficiente para quem quisesse.

A chuva voltou a apertar na hora de irmos embora, ali pelas 7 da noite. Embarcamos na aeronave do Caldas, que nos conduziu cuidadoso pelo meio da noite, sem sobressaltos, sem buracos, sem muitos freios, num verdadeiro Céu de Almirante. Acordamos em Itabaiana, numa escala técnica para desobstrução das vias urinárias, um cafezinho quentinho, um esticar de pernas, um prosear sonolento...

Às 9 e meia da noite, estávamos todos em porto seguro, mais uma missão cumprida, mais um esforço compensado, suores de uma semana trabalhada, trabalho de uma trilha bem suada. Ao todo foram 12 pneus furados, quase metade do contingente...

Cada um recolheu o próprio equipamento de guerra, a ser limpo, reparado, azeitado; cada um começará a juntar munição, para na próxima missão, outra trilha pelo sertão, lançarmos tudo em saraivada, como Volante da Paz...

* * *

Se você...

Uma boa crítica para todos, para mim também,

porque não sou sempre poeta,

e nem sempre de trilhas...



Se você...
(Paulo R. Boblitz - mai/2010)


Se você mudar a cabeça de alguém, que mude para bem...

Se você sorrir para alguém, que sorria com a própria alma...

Se você fizer um bem, o faça sem retribuição, pois que o bem maior..., é maior porque é do bem...

Se você disser um sim para alguém, que o diga com o coração...

Se você se esforçar por alguém, que o faça pelo amor, que paga qualquer empenho...

Se você se sentir bem por qualquer motivo, qual motivo o tirará da alegria?

Se você sentir mágoa, que ela seja mágoa de verdade...

Se você adorar a Deus, que seja por amor, por felicidade, por simpatia, mas nunca pelo temor...

Se você se sentir honesto, que seja porque se deu..., pela boa causa, pelo bom motivo, pois que ninguém nos engana, mas a Deus, tenta enganar...

Se você for um lobo, então que uive..., mas se for um anjo, então pise no chão e acorde, pois Anjos nos são os que nos guardam...

Se você pensa que ama, pensa porque não tem certeza, pois que a certeza é sempre a doação...

Se você usa as pessoas, pare de usar, pois todas acreditam em você; só você não acredita em si próprio...

Se você está cansado porque trabalhou, descanse; se você está cansado por outras razões, então produza...

Se você não acredita em Papai Noel, é porque nunca chegou a ser criança...

Se você não acredita nas outras pessoas, é porque nunca acreditou em si mesmo...

Se você nunca tem culpa, é porque é sempre o culpado...

E se você se ama, é porque também ama a todos os outros...

E se você não entendeu, eu também não...

* * *

Uma pequena Fã

Família é como a boa surpresa,

que de vez em quando na mesa, a sobremesa,

nos faz provar outros doces não percebidos...

Mais uma Ana que conheço,

das tantas Anas conhecidas,

vovó Ana, a irmã Anna, a sogra Ana, a prima Ana, e agora, a sobrinha Fã,

a tantas outras Anas amigas se juntando...



Uma pequena Fã
(Paulo R. Boblitz - mai/2010)


Risonha, encantadora, simpática, com uma expressão de quem vive aprontando...

Acho que quando ela foi informar a idade, uma ligeira coceira nos olhos a fez trocar o 1 pelo 2, pois que aquele rostinho não tem 21, mas sim seus maravilhosos 12 aninhos.

É minha prima, é minha sobrinha. É uma princesa, depois será rainha.

Vi as fotos que ela postou, acho que de um menino cantor; não gostei do penteado dele... Assim, um pequeno conselho para minha Fã: goste apenas da voz, não se ligue na personalidade, pois que artistas são estranhos, muito estranhos... - vivem para os espelhos...

Ao contrário, você pequena deve viver para a vida, conquistar seu futuro, ser estudiosa para entender as estrelas, essas que lhe piscam os amores, povoam seus sonhos, a enchem de poesia para você versar em flores...

Ana Luiza, um belo nome..., viva, irrequieta, curiosa, arteira... - seus olhinhos não negam...

Continue sendo uma boa filha, uma boa prima, uma boa sobrinha; continue sorrindo amando a Deus, a Seu filho Jesus, estudando, se comportando ajuizada, praticando as boas ações.

Acorde todos os dias com disposição, dê um bom dia ao dia, abra a janela e encha seu quarto de luz, escove os dentes, tome um bom banho, alimente-se bem, que é para pensar inteligente; não se esqueça dos beijos da mamãe e do papai, e um silencioso para o Anjo da Guarda...

Na escola, preste atenção aos seus amigos, os Professores, pois que a preparam para ser Doutora; no recreio, pule, corra, dance, cante e muito sorria.

Jamais perca a espontaneidade, esse sorriso simples, essa inteligência no olhar - fará você conquistar muitos Fãs...

Eu prometo, pois que também já virei seu Fã.

* * *

A Trilha que não fiz...

Quanto mais se vive,

mais se aprende lições...

E nas lições acabamos descobrindo,

os valores que ainda não temos...



A Trilha que não fiz...
(Paulo R. Boblitz - abr/2010)


Vivemos como trilhamos, caindo, levantando, competindo, enfim, subindo e descendo pelas dificuldades e facilidades que vamos encontrando pela frente, a cada dia que amanhece.

Ambas são reais, vida e trilha; ambas têm seus vales, seus córregos dourados, suas sombras refrescantes...

Não pude fazer a trilha com que tanto esperava; meu amigo me tirou a cabeça, o ânimo e a determinação.

Pombinho, aquele meu cavalo maluco, foi covardemente atropelado; hoje, no dia da trilha, amanheceu morto. Lutamos, eu, meu filho e todos os empregados amigos, Pombinho principalmente, mas a trilha foi muito mais pesada e venceu.

Foram quinze dias de sofrimento para o pobre animal, machucado principalmente por dentro, subindo, descendo, nos emocionando, até que finalmente caiu, nos dando sinal de que estava abandonando a luta.

O reerguemos, 500 kg reduzidos à metade, lhe dissemos palavras de coragem, e ele reagiu, talvez para que a última imagem dele ainda fosse de pé, valente como sempre foi, trabalhador e responsável, obediente e disciplinado.

Emocionado deixei o Pombinho ontem à noite, amparado num jirau feito às pressas, para que ele pudesse manter-se de pé; amanheceu fora dele, arranjou forças e saltou dos troncos, pois quis morrer deitado.

Talvez se Pombinho soubesse rezar, suas preces teriam se juntado às minhas; me pergunto por que Deus deixou que ele sofresse por tanto tempo. Agora também me pergunto, por onde andará o verdadeiro animal que fez isso tudo...

A trilha que vivemos, hoje me produziu cansaço, amargor na alma, numa vida que trilhamos, às vezes sem sentido, pois que inocentes sofrem, e culpados se regozijam...

Amanhã saberei como foi a trilha d'Os Zuandeiros, quem caiu, quem foi o Carniça...; hoje vou cuidar para que o Pombinho não se transforme numa, enterrando-o condignamente, entregando-o nas mãos de Deus, se é que Ele se interessa por eles...

Sobre a trilha, parece que algo já me dizia que eu não a percorreria, pois escrevi antecipado sobre ela, coisas subliminares interessantes que não me interessam, pois meu mundo é real, e das coisas escondidas!?, cuida o Diabo, como tão bem deve ter cuidado esse tempo todo, para derrotar a mim e ao Pombinho.

Aprendi também nessa trilha em que vivemos, que não adianta nenhuma revolta, embora dela não consigamos escapar, pois o futuro sempre ameniza o passado, faz esquecer das brasas que queimaram, tornando em vão, qualquer sentimento ruim. Por um longo tempo, sempre que olhar o pasto, verei Pombinho pastando...

Cuidemos das coisas vivas, das coisas reais; deixemos Pombinho em paz, num outro pasto que não sabemos, que não conhecemos, pois que as trilhas continuam...

* * *

Segundo dia - Trilhas em Garanhuns

Não há cansaço que não vá embora,

depois de um bom descanso...

Não há coragem que não retorne,

depois que esquentamos nossos motores...



Trilhas em Garanhuns - segundo dia
(Paulo R. Boblitz - abr/2010)

Garanhuns, segundo o sítio oficial da cidade (http://www.garanhuns.pe.gov.br/um_pouco_garanhuns.php), está a 842 metros acima do mar, rodeada por 7 colinas, um número mágico...

Acordamos cedo, tomamos um bom café e partimos para o que seria o nosso segundo dia de trilhas, apenas 17 km, para compensar a lida anterior. Paramos no Relógio das Flores e batemos uma recordação. Seria um tapa, pensei...

Logo pegamos o caminho para Santa Quitéria das Frexeiras, um pequeno vilarejo onde se situa o polêmico santuário, na verdade pagão, em litígio com a Igreja (http://acertodecontas.blog.br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-a-igreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/); a subida era suave e nos descortinava o lindo vale ao longe, quadriculado cheio de cores, pastos e plantações. Soprava um ar gelado e perigava uma garoa...

Marivaldo não estava mais conosco, pois precisara voltar na noite anterior para Lajedo, onde reside, não sem antes nos lançar um convite para pedalarmos lá na cidade dele. Vamos fazer o possível...

Havíamos descoberto o porquê do ninguém aparecer para a trilha da Cachoeira do Coema, nosso primeiro dia... - eles já conheciam as dificuldades de se chegar até o "Cu do Bicho", como aquela depressão é conhecida na região.

Uma trilha não se mede pelo número de participantes, mas sim pelo tamanho da qualidade com que seus integrantes interagem. Assim, não importa a distância a se percorrer, mas sim a quantidade de sorrisos e solidariedades que trocamos ao longo dela.

Trilhar, do lat. tribulare, significa moer, marcar com pegadas, palmilhar por um caminho, onde tribulação, também querendo dizer aflição, nos remete às reflexões, pois tudo à volta, grandeza e pobreza, riqueza e beleza, nos contrasta os corações, nos remete aos significados, nossas íntimas verdades... Trilhar, portanto, é manter o elo da união, o comungar das mesmas expressões, dos mesmos sorrisos, dos bons momentos em que cansados a uma boa sombra, filosofamos em curtas histórias...

Pedalávamos devagar, como a saborear o caminho molhado de uma fria manhã, quando Adagmar, de repente irrompeu em explosão, naquele siga-me quem puder, mergulhando numa sensacional longa carreira ladeira abaixo, ar gelado nos cortando as peles, piso úmido socado, nossas idéias desgrudando-se para trás...; meu punho ainda doía... - deslizei sem o ímpeto de todos eles, apenas a sentir o vento, a ouvir os pneus, o ranger da suspensão...

Desembocamos numa pequena praça, numa pequena feira - estávamos em Frexeiras, onde o dinheiro se mistura com a fé, os dois se corrompem... Crédulos aparecem de todos os cantos, a indústria do fervor se estabelece, Deus é escarnecido...

Visitamos o museu, há vários deles, onde riquezas foram deixadas, de um pobre povo a quem Deus nada Exige...; levaram coisas caras, algumas até caríssimas, quando bastava que levassem apenas o amor...

Visitamos o santuário, onde o mercador, dono por sinal, lembrava dos "pagamentos" das promessas, ali com a mão pronta, sócio da Santa, guardião dos valores que Quitéria não reclama... Meus olhos cruzam com os dele, mas dos meus logo eles fogem...; ele sabe que eu o conheço, pois o encaro com desprezo...

Rojões explodem como mais um ato, da peça que se encena, chamarizes para mais crédulos, que trazem seus dinheiros, suas ignorâncias e temores, levando de volta para casa, bobagens que a feira explora, lembranças que a Razão não levaria...

O ar é pesado e vou embora, não antes de ser interpelado, pois o dono é curioso, quer saber quem somos e de onde viemos, agora já do lado de fora, daquela grade que guarda os dinheiros, ritual da arrecadação interrompido. Não lhe deixamos nada...

Lá fora fotografo uma barraca de embromações, gororobas e pomadas, placebos, apenas isso... Minha bicicleta pelo Juca é derrubada, mais um pouco, uma garrafa de gororoba cai no chão, pintando a pedra de castanho; acidentes... Não me querem por ali...

Vamos embora, numa nova descida suave, mais verdes ares se achegando, até que numa encruzilhada nós paramos...

Adagmar pergunta:

- Voltamos pelo caminho mais longo, ou pelo caminho mais curto?

- Pelo caminho mais bonito... - respondemos todos, como se estivéssemos combinados.

O mais bonito era o mais longo, e o mais complicado..., aquele da esquerda, logo ali naquela represa estourada... Parei para fotografar o Hsu e o Marcelo, descendo montados um degrau de quase metro e meio; Adagmar amarelou... Enquanto me posicionava, uma cobra fugiu de mim, pequena e marrom escura, enfiando-se na turfa seca. O lugar inteiro não era bom...; meu Anjo da Guarda era mais forte...

Depois da represa arrebentada, uma longa subida sombreada..., afinal havíamos escolhido o caminho mais bonito, até que ela terminou e posamos para a posteridade, um mundo todo às nossas costas...

Chegamos onde Adagmar todo orgulhoso, nos mostrou o que parecia só deles ser: Barrigudas...

- Parecem ser Baobás..! - expliquei, interrompendo o sorriso do Adagmar, que refletiu que elas também existem em outros lugares.

Estávamos próximos de São João, onde buscaríamos água, pois já estávamos todos secos. No caminho, uma descida de dar água na boca, um suplício de subida, felizmente bem longe de nós, fora do nosso caminho...

Em São João, Juca descobriu melancias; queria comer uma inteira, água pura... Hsu, martelando-as com os dedos, aos sons ocos que devolviam, escolheu a mais gostosa; preferi a minha cerveja, que Adagmar acompanhou, ficando entusiasmado, a recitar poemas... Era hora de partirmos...

Descendo mais um pouco, chegamos na antiga e abandonada estação de trem de São João, onde Adagmar nos deu uma aula de História, contando como os escravos trabalharam, na antiga exploração inglesa; eles ainda nos exploram...

Seguimos até bem próximos de Garanhuns, pela antiga linha férrea, hoje sem trilhos e dormentes, cercas de um lado e de outro, pelo meio areia fofa em cumplicidade com o Sol, que naquela hora nos castigavam...

Pegamos o asfalto e mais subimos, chegamos finalmente em Garanhuns, os 17 km transformados em 31, prontos para um banho e um almoço, onde vi pratos em alvoroço, tamanhas fomes que reclamavam, das energias que se foram...

Missão cumprida, tirei o resto da tarde em cochilo... Acordei com as vozes no corredor; estavam a combinar uma outra trilha, comida chinesa ou brasileira? Consultei a retaguarda e preferimos umas pizzas; dia seguinte soube que a comida chinesa estava salgada...

Acordamos num domingo bem calmo e ensolarado. Eram 7 e meia quando meu filho e a esposa dele partiram na moto; meio dia nos ligaram, tinham chegado bem, porém debaixo de muita chuva...

Almoçamos e fomos embora, sem pressa, sem demoras...

Chegamos em casa já de noite, já temos muitos planos... Adagmar já nos cobra, novo passeio em outra hora...

Paciência, que voltaremos...

* * *

Trilhas em Garanhuns (primeiro dia)

Uma trilha, sempre cheia de novidades,

acaba se transformando em surpresas,

quando ainda não mapeada.

Termina ficando mais emocionante,

onde tudo novo, vira desafio...



Trilhas em Garanhuns (primeiro dia)
(Paulo R. Boblitz - abr/2010)


Não conheço nenhum despertador que seja simpático; quando o meu tocou às 3 e meia, acordou-me de um bom sono, ainda tudo muito escuro lá fora, pois acabamos de sair do verão.

Precisamente saíamos às 5 da manhã, em comboio, Ricardo Hsu, Marcelo, eu, e meu filho numa moto. Hsu levava a esposa Lu e os filhos Isabela e Felipe, e também a mãe, Dona Nancy, uma chinesa simpática semple solindo com seus pouco mais de 70 anos, a convessá alegle com aquele sotaque calactelístico dos chineses.

Perguntei-lhe se também iria pedalar, e ela prontamente respondeu:

- Non, non..! Eu pedala só péto de casa, pôco, né!?

Com Marcelo iam a noiva dele e o primo dele, o Juca. Comigo iam a esposa e nossa filha; meu filho levava a esposa dele na garupa da moto.

Por volta das 9 da manhã, nos instalávamos no hotel em Garanhuns, e algo próximo das 10 e meia, chegava o Adagmar com o Marivaldo, um Professor que havia vindo de Lajedo; o restante dos ciclistas não pôde vir, mas depois descobrimos o porquê...

Estávamos numa sexta-feira santa, e a cidade parecia dormir, de tão calma que nos estendia as avenidas, e logo tomávamos um estradão, novamente com o mesmo comboio, mas desta vez sem a moto, potente demais para trafegar sobre pedras soltas.

As casas cada vez mais isoladas, estavam todas trancadas; parecia que todo mundo havia se mudado, que atravessávamos um campo fantasma. Sexta-feira santa, dia da Paixão, todos recolhidos segundo a tradição, forte ainda nestes rincões; lembrei da Espanha, onde o dia parecia começar depois das 11 da manhã.

Segui no meu ritmo, com Juca mais à frente, e os outros 4 disparados lá mais adiante, Hsu, Marcelo, Adagmar e Marivaldo. Vez ou outra, Hsu voltava para me rebocar ou aguardava numa bifurcação, para que eu não tomasse o caminho errado.

Numa dessas interrogações, lá estava ele para pegarmos o caminho da esquerda, e seguirmos por ele, mas, preocupado com a direção que meu filho pudesse tomar, avisei ao Hsu que estaria voltando, mas ele não conseguiu me ouvir. A estradinha era estreita, com areia frouxa depositada onde as águas corriam, e quando estava a completar a curva, o pneu dianteiro ali afundou, travando, comigo travado nos pedais...

Parecia que havíamos marcado encontro para outra queda, minha segunda, no mesmo ponto do joelho direito, no mesmo palmar da mão esquerda, mas com uma novidade: o cotovelo direito.

Bici para um lado, eu para o outro, ambos em posições nada nobres; não deu nem tempo para um xingamento, pois bicho ligeiro é chão quando se aproxima da gente... Ainda sacudia a terra, quando Hsu e minha gente chegaram, a me verem lavar as feridas com a água de minha garrafinha.

Numa descida anterior (ela pode ser vista por sobre meu ombro esquerdo, entre eu e o Hsu), eu havia alcançado os 65,4 km/hora, mas agora, diante de uma descida ainda mais bonita, eu estava dolorido demais para algo mais brilhante, principalmente no pulso esquerdo, a receber as trepidações.

Foi um longo caminho até Saloá, onde encontramos um casal de velhos numa porta larga de um acanhado comércio, como a se utilizarem da garagem para a venda de biscoitos, refrigerantes, cervejas e outras coisas mais. Simpáticos, cederam o banheiro para as mulheres, enquanto eu pedia uma bem gelada cerveja, que Juca me acompanhou num copo.

Lu apareceu com uma caixa de remédios, e logo eu passava um algodão molhado com Água Oxigenada em minhas feridas, para em seguida pintá-las com Rifocina. Ali não havia nada para comermos, por isso nos despedimos e seguimos mais adiante, para uma outra porta parecida, onde saboreamos pequenos pães com queijo e presunto; era o nosso almoço, pois não havia nada por perto onde pudéssemos almoçar normalmente. Compramos água e fomos embora, em direção à cachoeira do Coema, mais conhecida na região como "O Cu do Bicho"...

Depois de uma trilha com muitos altos e baixos, bastante difícil para mim, chegávamos à última casa. À frente, a longa descida bastante íngreme até a cachoeira. Entreguei minha bicicleta ao filho, que ficou empolgado a descer com os outros, e já quer fazer as trilhas com o pai - seja bem-vindo, filho.

Na descida, muitos mandacarus e muitas urtigas; Adagmar descuidou-se e por elas foi fisgado nas duas coxas. As urtigas, os cansanções, são as águas vivas da mata, que nos cravam, ao primeiro contato, milhares de minúsculos espinhos urticantes e vesicantes, a nos deixarem a pele em fogo.

Finalmente chegamos ao ponto mais baixo da cachoeira, agora num simplório lamento, por lhe faltarem águas mais estrepitosas, o que somente ocorrerá com o advento das chuvas, quando maio chegar. Magnífico rochedo folhado, onde a água com paciência, vem lhe arrancando imensos matacões, depositando-os inertes e vencidos, aos pés da montanha.

Marivaldo, Adagmar, Marcelo e meu filho, malucos subiram pelas pedras escorregadias e tomaram banho; Hsu, Juca e eu, ajuizados, preferimos bater fotos. Chegamos à cachoeira por volta das 3 da tarde, e algo em torno das 4 e meia, já estávamos prontos para o retorno, uma longa subida mais íngreme ainda, pois o pneu do Hsu continha um grande espinho de Jurubeba, e não havia nem reparo e nem bomba, pois tudo estava lá em cima, no carro de apoio. Segurei na roda dianteira, o Hsu na traseira, e começamos a subir como verdadeiros cabritos, escorregando, agarrando-nos nos arbustos, vez ou outra o bar-end nos freando, por atracar-se com alguma rama ou cipó. Quando cansei, o Felipe, filho do Hsu, assumiu e seguiu em frente.

Mais um pouco estávamos na casa onde ficaram a mãe do Hsu e minha esposa, onde os moradores, simpáticos e hospitaleiros, forneceram cadeiras às duas, e água para todos. Enquanto Hsu remendava o pneu, eu partia com Adagmar, adiantando o serviço, mas logo todos eles já nos ultrapassavam, pois pedal é o que não falta a todos eles.

Com meu rendimento caindo mais e mais, falei para o Adagmar seguir em frente, pois ao chegar na rodovia asfaltada, eu daria minha trilha por encerrada, afinal os outros lá na frente também estariam precisando do apoio do carro, já que não estávamos com as lanternas nas bicicletas.

Aos 48,8 km, enfim embarcava no carro de Lu, não sem antes experimentar duas cãibras, que me fizeram saltar do carro ligeiro. Seguimos em frente e logo encontramos o Juca empurrando a bicicleta; também estava cansado, no meio de uma ladeira que se estendia morosa e cansativa, por longos 6 km. O mais engraçado é que não lembro dele colocando a bicicleta no teto da Doblò; eu devia estar zureta, termo que aprendi de uma mineira, quando ultrapassamos um longo esforço.

Mais à frente, Adagmar e Marivaldo se renderam ao cansaço, cada um pegando bigu em uma janela da Doblò, enquanto durava a subida, largando a carona e juntando-se na descida ao Hsu e ao Marcelo. O frio da noite já castigava, trazido numa viração tranqüila. Mais um pouco chegávamos num posto de gasolina, onde descobri que minha nora passava mal, fruto de fome, calor e esforço. Novamente Lu se achegou com sua pequena farmácia, entregando a ela uma pomada chinesa, para cheirar e passar nas têmporas.

Comemos alguma coisa e logo partíamos em direção a Garanhuns, ainda muito longe...

Uma trilha desconhecida para nós, portanto sem planejamento, mas vencida por quase todos, Hsu, Marcelo, Marivaldo e Adagmar, que chegaram a pedalar algo em torno dos 92 km, muito chão num dia só, considerando os obstáculos, as subidas, o frio, o sol, enfim, a má alimentação e cerca de 4 horas dirigindo, de Aracaju até Garanhuns.

Seja como for, foi um dia maravilhoso, mais um... Chegamos ao hotel por volta das 8 e meia de uma noite bem gostosa, a ser dormida com muitos sonhos, deglutida em só descanso, pois dia seguinte mais rumores, pedais em ciclos pelos caminhos, que Adagmar cheio de orgulho, nos mostrava e contava a História, sua história como povo...

Essa parte fica para depois...

* * *

Transpirações...

Transpirar é suar,

suar é batalhar,

batalhar é correr atrás,

seja lá do que for...



Transpirações...
(Paulo R. Boblitz - abr/2010)

Foi com grande prazer que descobri que o amigo produzia um blogue, uma paixão pelas águas, uma vida a elas dedicada...

Max Cunha eu conheci nas trilhas de Bonito e Serra Negra, em Pernambuco. Foi ele quem ganhou o troféu Carniça da Carniça, por ter comido muito no café da manhã, ficando para trás.

Visitei o blogue dele e recomendo, principalmente para os que gostam de natação em mar aberto, onde podemos encontrar notícias sobre torneios, travessias, maratonas propriamente ditas...

Aí vai o endereço: http://maratonasaquaticasbymaxcunha.blogspot.com/

Descobri ontem que o Ricardo Hsu, aquele mesmo que nos convidou para as trilhas de Bonito e Serra Negra, sagrou-se Campeão na categoria dele, a Master B, e Quinto lugar no Master A, no 1º Cross Country Urbano de Sergipe, neste último dia 21 de março, em Pau Ferro, periferia de Aracaju, onde participaram 31 ciclistas de Sergipe e da Bahia, num circuito extremamente travado.

É gente se mexendo, batalhando, buscando o que não mais precisa encontrar, mas principalmente dando exemplo.

Estaremos nesta semana santa, pedalando pelas serras de Garanhuns em Pernambuco, um convite do novo amigo Adagmar, morador daquela florida cidade, para nos juntarmos aos cerca de 30 outros ciclistas, todos empenhados em nos mostrar os belos recantos daquela Suíça nordestina.

Sairemos bem cedinho para ainda pedalarmos na sexta-feira; no sábado, uma outra nova trilha e, no domingo, a volta para casa, um finzinho de descanso, duma semana que já dura 11 dias... Por conta de um novo projeto, não pude pedalar até a praia do Saco, uma pura diversão beirando as espumas, sobre as areias molhadas desse nosso mar.

Domingo, bebericando um bom vinho que o filho trouxe de Florianópolis, Santa Catarina, estarei relatando essa bagunça toda, pois que se paramos, caímos da bicicleta...

* * *