Peço perdão

Perdão por incomodá-los; faço isso com boa vontade...

Perdão por ocupá-los...; faço isso também por mim...

Perdão se alguém não gostar...



Peço perdão
(Paulo Boblitz – ago/2004)


Dedicado a todos
que necessitam
pedir ou dar
um perdão.


Peço perdão ao Senhor meu Deus, em primeiro lugar...

Peço perdão ao Senhor meu Jesus Cristo, em segundo lugar, embora eu O confunda com Vosso Pai e, às vezes, fique sem saber a Quem pedir...

Os Dois sempre me deram tudo o que solicitei. Meu medo é que um dia Efetuem alguma cobrança e eu não possa pagá-Los à altura como tantos já pagaram, pois sou fraco e tenho medo de não honrá-Los diante da dor ou do sofrimento.

Peço perdão aos meus amigos e aos amigos que ainda conhecerei, todos irmãos. Fico triste por não ter conseguido conversar com os que já se foram. Quem sabe um dia nos encontremos e lá então conversaremos, creio eu que já perdoado por quem se libertou da gravidade.

Peço perdão por não ter criado, ou por ter criado o que não precisava existir.

Peço perdão por não ter entendido, ou por pensar ter assimilado.

Peço perdão por não ter tido a paciência, ou por tê-la tido em demasia, estragando alguma coisa...

Peço perdão por não ter conquistado pelo perdão, ou pela simpatia, ou pelo amor, ou por ter usurpado alguma coisa que não fazia jus.

Peço perdão por não ter amado a quem necessitava do meu amor, mas eu não sabia, ou se sabia, não me dividi, não me suplantei...

Peço perdão por não ter sorrido na hora certa, ou ralhado quando precisava. As mágoas são diversas eu sei, pelo magoar, pelo dizer, pelo fazer, mas não conhecemos o futuro e nem o verbo a ser pronunciado.

Peço perdão por não ter trabalhado, por não ter produzido, por não ter gerado, ainda que continue sem saber o que poderia ter construído.

Peço perdão por ter sido fraco, ou por ter sido forte, quando as situações exigiam o contrário...

Peço perdão se não ensinei, e se não aprendi, pois existimos por alguma razão...

Peço perdão por não ter visto, embora tenha a mim sido mostrado...

Peço perdão por não ter esquecido, ou pelo esquecimento daquilo que não poderia esquecer.

Peço perdão por não ter sido leal, seja pelo egoísmo ou pela inveja, pela comodidade ou pela ignorância.

Peço perdão por ter sido arrogante, ou por ter sido humilde quando precisava reagir.

Peço perdão por ter sido perdulário, ou magnânimo quando o certo era cortar.

Peço perdão por não ter ousado, ou por ter sido precipitado quando o correto seria calar e ouvir...

Peço perdão por não ter chorado, ou por chorar quando devia ter enfrentado.

Peço perdão por ter adoecido, quando devia sustentar, mas isso independe de nossa vontade.

Peço perdão quando sucumbi aos vícios, quando devia ter honrado minha saúde para um futuro de velhice.

Peço perdão por não me lembrar do quê ser perdoado, ou do quê a ter que pedir, ou de quem a ter que solicitar.

Peço perdão por não ter sofrido como vejo tantos a sofrerem, ou por não ter agradecido por tantas felicidades que eu conquistei e que vi acontecer...

São tantos os perdões a solicitar e a perdoar, que me vejo perdido entre as lágrimas que teimam em marejar, com a dor do aperto no coração, embriagado entre os remorsos e ressentimentos que se embaralham em minha tela, pelas lembranças que o olhar vazio arranca do horizonte do passado. O suspiro é cansado e abatido, quando deveria ser de valentia. Mais um perdão, por favor.

Perdão por ter sido exibido, quando ao meu lado havia um humilde.

Perdão pelos orgulhos tolos, pelos empacar, pelos não arredar, pelos gritar, pelos calar, pelos silêncios malignos ou cheios de ódio, pelos revides físicos ou verbais, pelas vinganças pensadas ou executadas, pelas futilidades ou vaidades, pelas nulidades materiais que o dinheiro compra, pelas coisas boas jogadas no lixo das frivolidades.

Perdão por somente agora eu o estar pedindo.

Perdão por não ter unido, por não ter apaziguado, perdão por tudo aquilo que separei.

Perdão por ter sido omisso e distante, surdo e cego, por não ter orientado, ou por não ter sabido encaminhar. Perdão por não liderar.

Perdão pela falta de sensibilidade, pelo não agradecer quando deveria, pelo não reconhecer quando recebido. Perdão, perdão, perdão...

Perdão por não ter sabido cultivar a humildade, nem utilizá-la, mesmo achando bonito quem a pratica.

Perdão meu Deus, por sofrer por quem eu amo, por enxergar os erros de quem me preocupo, e de nada poder fazer para ajudar, ou por não saber como mostrar, ou intervir, ou resolver. Perdão por perguntar: por quê o Senhor deixa acontecer?

Perdão pela vergonha que sinto por tudo o que eu fiz e que não fiz, quando poderia ter sido diferente se eu tivesse o dom da compreensão, ou da paciência, ou da compaixão, ou da sabedoria, ou da lealdade, ou da experiência do sempre mais velho, que sabe porque é velho, que é velho porque sabe, que sabe porque vive na velhice...

Hoje olhamos à volta e não vemos mais aquele brilho de outrora. Vemos a poeira do desânimo, o arroxear das pancadas que foram dadas e recebidas, os frutos bons que vingaram, as daninhas que forçaram seus caminhos nas pedras duras das palavras e das ações. Juras foram esquecidas, sentimentos suprimidos, sangue do sangue a misturar, e evaporar ao som das partilhas daquilo que foi conquistado em conjunto, com amor, com sacrifício, com padecer e noites em claro. Meu coração chora sem lágrimas, sem o doce sabor salgado da infelicidade que é passageira, mas com o cruel aperto do nó que não desata, com o volume diminuído dos pulmões que um dia aspiraram as flores prometidas do para sempre, com o acre sabor do saber sem volta impotente, câncer da família desfeita a dar exemplos, sorrisos transformados em caretas, suspiros que se tornaram xingamentos. Ele chora palpitando pela ausência da lealdade, em ardor silencioso das incompreensões e das incompetentes faltas do renunciar.

Perdão por não ter cumprido com meu papel, no ato da peça que me valia, esquecendo a fala não querendo sopro do palco, improvisando onde não inventamos, apenas vivemos, apenas devemos fazer a nossa parte, sempre bem feita, conforme o que foi contratado, prometido e selado diante do Senhor.

Perdão Meu Grande Pai Todo Poderoso, em ver tudo isso e nada fazer, apenas me intrometer, sem sangrar, sem nenhuma dor direta sentir, e apenas daqui de longe constatar que não somos o que somos, mas apenas o que fomos.

Perdão meu Bom Deus, por ter que pedir perdão. Perdão por, às vezes, não saber ou não querer ouvi-Lo.

Perdão...

* * *

O pimeio dente

Quem já foi criança, é bem capaz de não se lembrar... Quem já viu acontecer, pu sheto me daá rajão...

Lembei desha históia, quando minha amiga agóinha me contô como faiava o pópio nome déia... Quando ela quiansha, né!?

Tá aí no bog...; minha amiga não!, a históia...



O pimeio dente
(Paulo Boblitz - ago/5)


- Mamãe!, meu dente tá mole... - falou a criança, balançando o dentinho com a ponta do dedinho.

- Vem aqui meu anjo...; deixa a mamãe examinar...

O irmão mais velho, fedorento e com espinhas, foi logo fazendo inferno:

- Vai ter de arrancar... - enquanto falava, ia fazendo uma careta de dor, levando as mãos à bochecha, como se tudo estivesse inchado.

A criança olhou apavorada para a mãe, que já estava com os braços abertos sorridente, esperando para ser a sua primeira dentista.

O irmão mais velho não podia deixar passar a ocasião, e novamente fuzilou:

- Eles dão uma injeção desse tamanho... - e abriu os dedos polegar e indicador, diante dos olhos já arregalados da criança, agora já com a boca aberta em análise pela doutora da casa.

E continuou:

- Eles usam um alicate desse tamanho, ó! - e fez o tamanho da ferramenta, bem maior do que o normal.

- E quando eles arrancam o dente, vem até pedaço de juízo, fora a ruma de sangue também...

A criança, já apavorada, perguntou:

- É er-áde, ãe?

- Claro que não! Manda ele ir cagar...

- Ái a-á! - falou a criança com os dedos da mãe em sua pequenina boca, examinando-lhe a dentição.

E o irmão mais velho soltou uma risada sem tamanho, certo que havia cumprido a sua missão, como quem a informar que por aquilo tudo ele já passara.

Como a oportunidade era difícil de se repetir, não deixou por menos, continuando a enjoar o irmão mais novo:

- E vai ficar um buraco assim, ó! - e fez o tamanho do buraco...

A criança olhou para a mãe, pedindo ajuda, e ela prontamente:

- Manda ele tomar banho...

- Ái o-á ânho...

E o irmão mais velho aí é que ria, e o pior!, já estava contaminando a própria mãe, que já começava também a achar a situação engraçada.

A criança, completamente cercada pelas adversidades, vendo a sua esperança, a sua mãezinha querida, logo ela!, também a abandonando, traiu-se em início de choro.

Os olhos a denunciaram, criaram água e mais brilharam mudando de cor, anunciando em muda mensagem, o desconforto do temor, a sensação do abandono, do ninguém mais gosta de mim... Tudo parecia desmoronar para a criança; até a Santa à sua frente, já queria mangar.

- Prooonto... - disse a mãe.

Fez-se um silêncio de repente; os olhos da criança enxugaram, o irmão mais velho parou com a macaquice, e todos ficaram a contemplar...

A mãe, com o pequeno dentinho entre os dedos, um pouco vermelho de pouco sangue, o exibia para o mundo, principalmente para a criança, em amorosa lição que operação de mãe não dói...

A criança já passava a língua pelo buraco, e estendia seu pequeno braço para pegar o que havia sido seu.

A mãe, antes de dá-lo, recuou um pouco a mão, avisando:

- Vamos guardá-lo de recordação..!

E a criança, tomando o dentinho com curiosidade e fazendo que sim com a cabeça, o observava com atenção, em pé por entre as pernas da mãe, já esquecida do seu primeiro problema existencial, assim como esquecido estava do irmão mais velho, agora sem muita graça e ação.

- Agora assobia! Assobia que eu quero ver... - provocou novamente o irmão mais velho, não inteiramente derrotado...

- Fái tomá fanho..! - falou soprando a criança, tentando assobiar, saindo correndo pelo mundo a anunciar, mostrando a sua grade aberta a todos os amiguinhos, com orgulho comentando:

- Foi minha mãe que aancou..!, e eu nem choei...

* * *

Palavras

(Paulo Boblitz - jun/2009)


As palavras não são duras; dureza é o que elas podem representar...

Toda palavra encerra uma verdade, pois que cada uma tem o seu significado.

Nós apenas as utilizamos, e as pobres são incapazes de representar algo em contrário, quando com elas mentimos...

Nenhuma delas é competente para desmascarar quem as pronuncia...

Palavras são apenas sons que nos surgem da alma... Se somos puros, elas por certo encerrarão pureza; ao contrário, se somos falsos, elas prometerão um futuro cheio de dores...

Palavras representam muitas coisas... Podem destruir, podem construir...

Palavras salvam, estimulam, modificam, tornam as pessoas mais humanas... Não é à toa que somos animais falantes...

- Alô!? - escuto apenas o silêncio..., que muito também diz...

- Alô!? - ninguém responde...

Por isso a solidão é triste, por não existirem palavras...

Por isso os loucos são dementes, por não ouvirem respostas de paredes...

Por isso ficamos roucos, quando nos lançamos ao vento...

Calo também, aumentando a distância...

Passo a desejar..., pois que desejos são palavras mudas; só as escutam nossos Anjos...

Mas dizem que ouvir também é conversar... Assim, fico contente...

Jamais percam a vontade de falar... Cantem, se for o caso...

Por isso as mulheres são especiais, por mais falarem...; enquanto estiverem falando, o mundo será sempre belo...

Palavras..., sons e grunhidos tornados verbo...

Por isso temos poder...

* * *

Uma nova paixão...

(Paulo Boblitz - jun/2009)


Fazia tempo que não me apaixonava..., uma pena, pois é tão gostoso estarmos apaixonados...

Pensamos nela o tempo inteiro; sonhamos em tudo o que fazemos, como se ela estivesse nos olhando...

Imaginamos, imaginamos, e imaginamos...

O que ela estará fazendo agora? Será que pensa em mim?

Dúvidas e mais dúvidas, ansiedades, desejos, fantasias...; como é bom a paixão...

Mudamos radicalmente... De repente, tudo fica ótimo. Esquecemos da palavra não, nem ligamos para alguma perda, não sentimos mais a dor, nada mais nos é desagradável, pois estamos tocados pela magia do amor...

Rimos à toa..., e descobrem logo que estamos apaixonados, pois que passa a brilhar em nossas frontes, aquele enorme néon.

Damos uma topada e não pronunciamos nenhum nome feio. Dão-nos uma fechada, e ainda sorrimos para o energúmeno...

É delicioso estarmos apaixonados, embora não sintamos nenhum sabor...

Tudo o que queremos é sonhar..., os sonhos mais ridículos do mundo..., sonhos de quem está apaixonado - pura exibição virtual..., mas para quem?

Desejo sexual? Fica ultrapassado, pois nos reprovamos se tivermos alguma chama erótica num desses sonhos. Nos autotransformamos em hipócritas conoscos mesmos...; a fantasia entrando em choque com a própria fantasia...

É o amor..., estado de espírito debilóide...

Perdemos dinheiro e nem notamos; brigamos com os amigos, e ainda achamos bem feito...; perdemos até o apetite...

Enfeitiçados..?, iludidos..?, pois que nos enganamos por nossa própria conta, criamos expectativas, tudo porque pusemos a vista em tamanha formosura..., ou porque tamanha simpatia apenas nos sorriu...

Mas sonho não é coma, e até mesmo desse, um dia, podemos dele acordar...

Acordamos..., afinal aquele sorriso nem tinha sido para nós, e sim para o infeliz atrás de nós... Infeliz? Num piscar já estamos com raiva!?

Assim é a passagem de um estado para o outro..., do calor ao frio, sem passar pelo morno...

Mas olho de novo para ela...; continua deslumbrante..., cativante..., um doce...

Voltamos a nos iludir...; é a paixão ainda trabalhando...

Seja como for, enquanto dura é formidável...; nos sentimos mais fortes, mais bonitos e inteligentes, nos perfumamos, nos olhamos mais no espelho...

Faz bem a gente se apaixonar de vez em quando; a gente sai da rotina, volta a ser menino, começa a sonhar acordado, faz um monte de coisas erradas...

Faz bem esse negócio de se apaixonar...; a gente volta a se inspirar, descobre que pode...

Todo mundo deveria se apaixonar mais vezes; faz bem à saúde, aumenta o nosso brilho... Prometo: vou me apaixonar todos os meses...

Não consigo deixar de olhar para ela... Cativante..., simplesmente sublime...

Que importa se só eu sinto? Pelo menos, já é meio caminho andado...

Por que todos vocês também não se apaixonam..?

* * *

Confissão

(Paulo Boblitz - ago/2005)


Vou fazer uma confissão: meus textos não são todos meus; devo reparti-los com os autores das músicas com que escrevo ouvindo.

Aqueles são os verdadeiros mestres, pois desabrocham as nossas idéias, nos tocam no coração, nos fazem inspirados, lembrar de palavras bonitas, interligá-las todas sob o suave som, sob o lamento da percussão, sob a verdadeira língua universal, a que todos usam para suavizar, conquistar, pensar, amar e chorar...

Os autores choraram as notas, antes mesmo de tocá-las nos instrumentos, tão macias quanto macios os tons, tão tristes quanto tristes os pensamentos, tão alegres quanto alegres as sensações, tão vibrantes quanto enérgicas as composições, a juntada de tantos instrumentos numa hora só, o ápice do mais alto em solidão, o cúmulo do agudo em agonia, o grave soturno do sério baixo...

Não faço nada sem nada me inspirar; assim não deixo de olhar a natureza, as pessoas a meu redor, os animais em confusão, os pássaros em vôo planado, o pranto do vento pela fresta, o apito do trem que se impõe, a onda que se quebra em espalhar, o trovão que se anuncia no piscar, o vaga-lume que errático, sobressai na escuridão, o medo que me faz homem de pensar...

Não penso nada sozinho, e sou escravo dos meus olhos, dos meus ouvidos, do meu nariz. Provo a brisa fria que cai, sinto o arrepio do vento intrometido que corta o tecido fino, cheiro o mato molhado da manhã em transpiração, e um piano toca em minha fronte, um violino teima em sussurrar, um sax expele o seu lamento, e tudo se confunde no papel, na escrita rápida antes que se vá...

O sino ao longe lembra a Deus, que me lembra de rezar, que atrapalha o meu pensar, mas só renova o meu imaginar, pausa boa do silêncio dos instrumentos, hora de organizar, mais idéias que vão surgindo..., meu Deus perdoe a falta de atenção, a confusão de minha reza, oração e texto em mistura, loucura que só o Senhor entende, doidice que só o Senhor consegue separar...

Sinto no tato a caneta, aço duro a me lembrar, das coisas boas que eu vi ao meu redor, das músicas suaves que sopraram em minha alma, do sopro divino que Deus me sussurrou, das idéias que Deus me fez pensar, do sonho que Deus me fez sonhar...

Não sou nada sem nada à minha volta; não penso em nada sem nada me atingindo; não crio nada sem nada me criando; não faço nada sem Deus me ajudando...

Perdoem o meu agir, pois devo tudo a tudo fora de mim; perdoem a minha autoria, pois tudo já foi criado, já foi pensado antes de mim; é só estender o braço e pegar, abrir os olhos e enxergar, saber ouvir e cheirar, dar crédito ao crédito que Deus nos deu, deixar fluir e anotar, tudo o que é belo e sutil, levantar o véu e olhar, saber olhar para ver, orar para merecer...

Não criamos para as pedras, pois elas não nos dão atenção; não criamos para os animais, pois eles não nos entendem; não olhamos para o chão, pois ele não nos reflete como o céu, pois escrevemos para Deus, quando os Seus filhos nos entendem, Lhe honram no pensar, e criam mais notas que o vento não consegue levar; oramos todos juntos em pensamentos, em reações que nos fazem lembrar, das coisas belas que Deus criou...

Nosso paraíso existe em cada um, segundo o paraíso que cada um possui, segundo a vontade da felicidade, segundo a luz que cada um consegue enxergar, na cor que cada um gosta de ver...

Olho para a Lua e ela é só minha por meus instantes; Deus a dá de graça para quem a quer olhar. Procuro as estrelas e elejo uma para mim, quem sabe se algum dia, nela eu vá morar, meu jardim de luzes construir, a noite escura embelezar, piscar de longe a convidar amigos...

Olho para o Sol e ele me ofusca, me lembra que eu tenho olhos terrenos, olhos para olhar e refletir, as belezas delicadas que Deus nos deu...

Olho para a sombra e nela eu não me vejo, vejo um filho querido de Deus, como vejo meus outros irmãos, encostando-nos na terra sem um tocar...

Olho para o papel e a tinta que tem rumo, verbo em versos a caminhar, em idéias proliferar, a Deus apenas representar e honrar...

* * *

Reflexões sentadas...

Só existem dois momentos inteiramente nossos: quando estamos debaixo do chuveiro, e quando estamos sentados no trono, aguardando o desenrolar do fato(*); tem gente que até aprecia uma boa leitura...

Momentos em que a mente pode trabalhar sem nenhuma responsabilidade, nenhuma pressão... (opa!)

E hoje aprendi mais uma palavra nova: Bostejar..., que não tem nada a ver com bosta, e tem, pois que significa dizer tolices...

(*) Brasil, Nordeste: intestino ou vísceras de animal



Reflexões sentadas...
(Paulo Boblitz - mar/2008)


Eu gosto muito de queijo, mas não abuso, quer dizer, passo algum tempo sem comprá-lo, mas quando compro, vira e mexe, estou com uma fatia nos dedos.

Pois bem..., acabei comendo demais de ontem para hoje, e sentado aqui olhando as mensagens na net, a barriga começou a dar sinais de volteios e corrupios, aumentando a pressão...

Somos, de modo geral, folgados por natureza, pelo menos enquanto podemos. Assim, fui lendo as mensagens e acompanhando de longe as revoluções, até o momento em que a coisa tornou-se séria, exigindo pronta atuação e um largar de outras coisas tornadas secundárias, para atender os reclames de tantos órgãos em desavenças...

Enfim, uma perfeita teoria da relatividade em andamento prático, onde as prioridades se alternam conforme o aperto...

Fui, portanto, ao trono como todos vocês vão, numa natureza normal e sem pressa, pois que não me fiz esperar, a ponto de deixar o fiofó estressado. Lá chegando, acionei a trava tradicional da porta, aliás, um vaso sempre será um vaso, pois mesmo que numa opção para casal (já vi redes, lençóis, camas, banheiras e tantas outras coisas), jamais seriam ocupados pela dupla ao mesmo tempo. Não seria romântico...

De posse das calças já nas mãos, inteiramente relaxado, sentado como quem espera por alguma coisa, o que condiz com a verdade, pois não sou daqueles que sentam para se livrar de alguma coisa, esperei o vir com paciência. Se quiser sair, que saia, mas que saia com as próprias forças...

Com um olhar perdido no horizonte, logo ali na porta à minha frente, aquele olhar que vemos mas não enxergamos, ainda pude sentir que algo se mexia: era a barriga que se preparava para uma resolução um tanto radical, coisas que não adianta nos metermos...

Dei um bocejo e a primeira estrepitante saraivada saiu de rompante... Dei uma piscada enfadado, e logo mais um pouco, saía uma outra, desta feita mais liquefeita, mas entrecortada de bolhas gasosas pelo meio...

Imaginei o spray por alguns instantes, ao mesmo tempo em que inalava os primeiros efeitos... Não era de queijo..., mas caramba!, de algo muito, mas muito fedido..! Cheguei até a olhar em volta para ver se eu estava mesmo só, coisa dos instintos, coisas do ego, que não aceitam certas verdades...

A coisa amainou por instantes, mas é como naquele negócio do olho do ciclone...; de repente, começa de novo...

E foi o que aconteceu, uma nova tempestade com ozônios diferentes, mais enchente escorchante, afinal, o que estaria acontecendo? Onde é que aquela turma queria chegar?, pois que isso é, de certa forma, falta de respeito..., pois que minha parte eu havia cumprido, me sentado, feito o meu papel, aliás já estava com ele nas mãos, mas a coisa parecia abusar, pois cagar é uma coisa, fazer farra é outra..., e estavam os dois numa pirotecnia danada...

Por instantes eu pensei, finalmente acabou..., e até usei do papel..., só para perder o pedaço...

Num espasmo indolor, numa última cartada, mais água rala desceu de fato... Estavam a gozar comigo..., ou quem sabe os dois em medição de forças...

Olhei para o horizonte novamente, aquela linha do olhar, que horizontal nos leva a algum lugar, e esperei paciente que os dois se cansassem, no caso o cu e a barriga...

E enquanto recostava em busca de maior conforto, pensei na vida e em torno dela, das coisas e jogos que participamos, pois que a vida é feita de riscos, um perfeito jogo de escolhas...

E foi assim que imaginei, caso tivesse cinco cus nesses momentos, que eu bem poderia brincar de loteria...

* * *

Analógico ou digital

Pode até haver quem não concorde...,
mas tem muita coisa, que é mais gostoso como antigamente...

Vocês mais jovens é que não conhecem...



Analógico ou digital
(Paulo Boblitz - ago/2005)


Analógico não tem nada a ver com a lógica da Ana, nem digital são os dedos do Tal.

Analogia tem a ver com a lógica sim, pois trata de semelhanças entre coisas diferentes, por exemplo os ponteiros de um relógio, todos eles ponteiros, um anão e parrudo que diz as horas; outro magro e comprido que diz os minutos; outro bem mais magro e também comprido, mas apressadinho, que diz os segundos...

Os três falam da mesma coisa - do tempo...

Digital tem a ver com os dedos, pois temos dez em ambas as mãos, mas engana-se quem acha que digitação é só escrever um texto ou trabalho qualquer no computador.

Digitação é movimento de exercício dos dedos, assim define o meu dicionário, edição de 1963, portanto anterior aos computadores como os conhecemos hoje em dia. Assim, digitamos em um piano também...

Hoje em dia, não digitamos os dedos em exercícios, mas adquirimos a LER (Lesão por Esforço Repetitivo) por tanta digitação.

E é o progresso quem modifica as coisas e os costumes, e as definições também.

Perguntei as horas para o meu filho, e ele, após consulta a alguma coisa de plástico no pulso, informou:

- Dez e cinqüenta e sete...

Olhei para ele e fiquei pensando, não aguardando, o valor exato dos segundos..., mas lembrando daquelas ofertas que terminam em novecentos e noventa e nove, que nos fazem esquecer da milhar inteira.

Então, ponderei:

- Meu filho..! Já são onze horas..!

Ele não entendeu muito bem o que eu quis dizer, pois apenas lera o que no mostrador aparecia: números digitais em cristal líquido. Coisas de japonês.

Quando o tempo era dos suíços, necessitávamos aprender a ver as horas, e brincávamos aprendendo, praticando a tabuada dos cinco...

A tecnologia é sempre o cume do conhecimento, mas é também o seu maior exterminador. Não sabemos mais mexer nas réguas de cálculo, nem consultar tabela de logaritmos; o ábaco ninguém mais sabe o que é, e prova dos noves é coisa de lelé.

Tempo digital deixou de ser vivido, passou a ser acompanhado, e o lemos em seus múltiplos detalhes, até à fração do segundo, o piscar de um olho... - quem sabe a serventia dessa informação?

Tempo analógico é que é o gostoso, daquele que vem redondo, de preferência cheio de rodinhas dentadas no interior, com três ponteiros bem distintos, um anão e dois compridos. Com ele vivemos o tempo, pois somos obrigados ao arredondamento, para mais ou para menos... - quem se importa com exatidão!?

Raciocinamos com frações, com quartos de hora, com metade de hora, com múltiplos de cinco, e determinamos, por analogia, se estamos além ou aquém, se corremos ou deixamos como está, pois com analogia, enxergamos o tempo, temos noção do tempo, vemos ele em movimento circular, imitando nossas vidas, tudo girando sem parar...

* * *